Título: Temer quer conter reajuste de policiais e juízes para frear gasto
Autor: Rittner , Daniel
Fonte: Valor Econômico, 12/11/2010, Política, p. A8

O vice-presidente eleito Michel Temer desceu do quarto às 8h30, com os cabelos impecavelmente penteados e abotoaduras na camisa, acessórios dispensados pelos seus colegas parlamentares. Dirigiu-se ao salão de estilo inglês do Hotel Emperador, um dos mais chiques de Buenos Aires, e nem tocou as "media lunas" de manteiga e de gordura bovina servidas pelo garçom. Elas são como croissants e os argentinos as devoram como pérolas da confeitaria nacional. Temer olhou-as sem entusiasmo: "Quero mais do que isso. Não tem um omelete?"

Em sua primeira viagem internacional após as eleições, Temer diz que está tirando, sem exagero, o atraso do sono. "Estava dormindo seis horas por dia, no máximo, mas só descansava umas três horas. Nas outras três, fazia reuniões na minha cabeça, mesmo em sonho", comentou. A partir de sábado, quando tiver voltado de Buenos Aires, pretende retomar as caminhadas que fazia quatro ou cinco vezes por semana e foram suspensas nos últimos meses de campanha.

No Senado da Argentina, onde participa de uma conferência sobre educação com parlamentares iberoamericanos, prestava atenção a todos os pronunciamentos - alguns brasileiros, como o deputado Henrique Eduardo Alves (PMDB-RN), entretiam-se com o telefone celular. Em um intervalo da conferência, enquanto eram servidos aos convidados alfajores de maizena recheados de doce de leite, Temer explicava aos curiosos no cafezinho do Senado: "O PMDB é um partido puramente de centro". Argumentava que a legenda, ao ser fiel da balança para qualquer governo, impedia movimentos bruscos à direita ou à esquerda. Foi efusivamente cumprimentado por uma parlamentar portuguesa, que procurou se corrigir a tempo de contornar uma gafe, ao ignorar a presença do ex-governador de Sergipe e deputado Albano Franco (PSDB), ao lado de Temer. "É claro que me lembro do senhor", ela estendeu a mão.

Aos jornalistas brasileiros, elogiou muito o presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, mas deixou claro que isso não significava que negociaria sua permanência na instituição ou sua indicação à Esplanada dos Ministérios. Defendeu maior controle das contas públicas, com um freio no gasto. Argumentou que, para isso, é preciso desativar algumas bombas-relógio no Congresso, como as propostas de piso salarial para os policiais militares e de reajuste para a magistratura nacional e servidores do Poder Judiciário.

Em uma conversa informal, resistiu, mas acabou admitindo que é um vice com maior presença política que seus dois antecessores. Temer lembrou que Marco Maciel negociava muito nos bastidores e que José Alencar foi ministro da Defesa. Prometeu uma atuação "discreta, como convém ao vice, porque jamais boto o cotovelo para ocupar espaço". "Quero ser um vice modesto de uma presidente forte", resumiu. Diplomaticamente, evitou opinar sobre a situação do colega argentino Julio Cobos, o vice-presidente argentino que rompeu com a presidente Cristina Kirchner, por quem Temer foi recebido ontem. Na maior crise política enfrentada por Cristina, em 2008, coube a Cobos - também presidente do Senado - desempatar a votação sobre o aumento dos impostos às exportações agrícolas. Tremendo, votou com a oposição e até hoje é chamado de Judas pelos kirchneristas.