Título: Não haverá ajuste às custas do social
Autor: Romero , Cristiano
Fonte: Valor Econômico, 01/11/2010, Politica, p. A3

A presidente eleita Dilma Rousseff garantiu ontem, durante seu primeiro pronunciamento, que não vai fazer ajuste fiscal que corte programas sociais, serviços essenciais ou os investimentos "necessários" ao Brasil. Para ela, o povo brasileiro não aceita que governos gastem "acima do que seja sustentável". Por isso, disse que trabalhará pela melhoria da qualidade do gasto público, pela simplificação e atenuação da tributação e pela qualificação do serviço público. "Recusamos as visões de ajuste que recaem sobre programas sociais, serviços essenciais à população e os necessários investimentos para o bem do país", afirmou.

Em seu primeiro discurso, Dilma respondeu a muitas das dúvidas levantadas pelo mercado financeiro e pelo meio empresarial durante a campanha. Comprometeu-se com a responsabilidade fiscal, refutou o loteamento da administração pública ao prometer zelar "pela meritocracia no funcionalismo e pela excelência no serviço público" e se dispôs a respaldar a atuação autônoma das agências reguladoras, "voltadas para a promoção da inovação, da saudável concorrência e da efetividade dos setores regulados".

Em sua análise sobre as perspectivas de crescimento da economia, Dilma ressaltou o fato de que, no curto prazo, o Brasil não poderá contar com a pujança das economias avançadas, que ainda sofrem os efeitos da crise financeira internacional. "Por isso, tornam-se ainda mais importantes nossas próprias políticas, nosso próprio mercado, nossa própria poupança", observou. Ela disse que continuará propugnando pelo "fim do protecionismo dos países ricos" e contra a guerra cambial.

Dilma reiterou o compromisso de campanha de lutar pela erradicação da miséria no Brasil e pediu a ajuda a todos os brasileiros de bem. "Não podemos descansar enquanto tivermos brasileiros com fome, enquanto houver famílias morando nas ruas, enquanto crianças pobres estiverem abandonadas à sua própria sorte e enquanto reinar o crack."

A presidente eleita disse que dará autonomia às agências reguladoras e assegurou que exigirá capacidade técnica dos cargos a serem ocupados pelos 10 partidos que apoiam o seu governo. "Vou com eles [os partidos aliados] construir um governo onde a capacidade profissional, a liderança e a disposição de servir ao país serão o critério fundamental."

Dilma também prometeu ampliar os limites do Super Simples e disse que vai trabalhar para aprovar o projeto do fundo social do pré-sal e do modelo que institui o regime de partilha na exploração de petróleo. "Trataremos os recursos provenientes de nossas riquezas naturais sempre com o pensamento de longo prazo", disse. "Recusaremos o gasto efêmero que deixa para as futuras gerações apenas as dívidas e a desesperança."

Adotando um tom sereno, Dilma declarou que estenderá a mão à oposição. "Da minha parte, não haverá discriminação, privilégios ou compadrio", disse ela.

A presidente eleita disse que vai se empenhar pela realização de uma reforma política. "Nosso país precisa ainda melhorar a conduta e a qualidade da política", reconheceu. Em seguida, prometeu combater a corrupção. "Não haverá compromisso com o erro, o desvio e o malfeito. Serei rígida na defesa do interesse público."

Por fim, com a voz embargada, homenageou Lula. "A alegria que eu sinto hoje pela minha vitória se mistura com a emoção de sua despedida. Sei que a distância de um cargo nada significa para um homem de tamanha grandeza e generosidade", discursou. "A tarefa de sucedê-lo é difícil e desafiadora, mas saberei honrar esse legado."

Acompanhada pelos coordenadores de campanha, José Eduardo Dutra e Antonio Palocci, Dilma leu, durante 25 minutos, um discurso escrito, já mostrando uma diferença em relação a Lula, que nesses momentos prefere falar de improviso.

Participaram do evento, entre outros, o vice-presidente eleito Michel Temer, os governadores Eduardo Campos (PSB-PE), Marcelo Déda (PT-SE), Jaques Wagner (PT-BA) e Cid Gomes (PSB-CE), o presidente do Senado, José Sarney (PMDB-AP), e o ex-ministro José Dirceu, que entrou no auditório ao lado da presidente eleita e de Palocci.

Para o chefe de gabinete da Presidência da República, Gilberto Carvalho, o principal ponto do discurso foi a proposta de pacificação com a oposição. "Acabou essa história de disputa, chegou o momento da união", afirmou.

Num tom surpreendente, Dirceu também defendeu uma reaproximação com a oposição, inclusive com o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. "Tenho a melhor impressão do ex-presidente, que saberá separar as críticas de governo das críticas pessoais", disse ele.

Logo após o pronunciamento, Dilma dirigiu-se ao Alvorada, acompanhada de alguns governadores, para comemorar a eleição junto ao presidente Lula.

Pela manhã, em Porto Alegre, a candidata do PT disse que, se fosse eleita, governaria com a coalizão que a apoiou e deixou uma porta aberta para o diálogo com a oposição. "Governarei para todos e conversarei com todos os brasileiros, sem exceção", disse a candidata.

"Amanhã [hoje] começa uma nova etapa na democracia". "É exigido que as pessoas que assumam a direção do país tenham sentido republicano e sentido democrático de governar para todos."