Título: Desafio de Dilma será o de impor sua marca
Autor: Romero , Cristiano
Fonte: Valor Econômico, 01/11/2010, Politica, p. A3

Eleições: Petistas pressionarão contra mudanças e oposição apostará na tensão com legado do presidente Lula

Escolhida candidata à sucessão do presidente Luiz Inácio Lula da Silva há quatro anos, Dilma Rousseff assumirá a Presidência da República em 1º de janeiro com o desafio de provar a aliados e à oposição que fará um governo com a sua marca. A expectativa do presidente que a escolheu pessoalmente para substituí-lo, contra inclusive a resistência inicial de seu partido, o PT, é que ela faça um governo que seja mera continuação do seu. A oposição, por sua vez, questiona, pela mesma razão, a sua legitimidade política.

"A referência de Dilma é o governo Lula. Ela não terá espaço para grandes mudanças programáticas", sustenta um ministro próximo da presidente eleita e do presidente Lula. "A lógica [do governo Dilma] é consolidar o que fizemos." Esse ministro, que nas últimas semanas se reuniu inúmeras vezes com Lula no Palácio da Alvorada fora do expediente de trabalho, reflete, na verdade, a esperança do presidente. "O governo é de continuidade", insistiu o aliado de Dilma.

Um especialista em Lula e na presidente eleita chama a atenção para as diferenças entre os dois, salientando vantagens e desvantagens. Uma desvantagem clara de Dilma são a falta de carisma e o fato de ainda não ser uma liderança forte. Líder política ela vai se tornar com o tempo depois de se sentar na cadeira de presidente da República, diz esse interlocutor. Já o carisma é algo que, em geral, não se adquire.

Uma vantagem de Dilma em relação ao seu mentor pode fazer diferença na maneira de governar: Dilma, observa um aliado, é "mais processual" que Lula. O presidente governou com a intuição. É um mestre da sobrevivência e marcou seu governo com ações de improviso. Dilma gosta de planejamento.

Ao contrário de Lula, a presidente eleita tem convicções sobre temas espinhosos. Um exemplo é o envolvimento das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farcs) com o narcotráfico. O presidente jamais admitiu publicamente esse vínculo. Já Dilma o fez durante a campanha.

Outros dois assuntos sobre os quais a presidente eleita tem opinião definida, enquanto Lula sempre fugiu deles, são aborto e Movimento dos Trabalhadores Sem-Terra (MST). No primeiro caso, ela é favorável à legalização por considerar essa uma questão de saúde pública. No caso do MST, Dilma apoia o movimento, desde que ele não cometa ilegalidades, como invasão de empresas e propriedades rurais produtivas.

A radicalização política ocorrida na campanha confrontou Dilma com suas posições históricas. No fim, ela se mostrou pragmática, ainda que a contragosto. Os exemplos do aborto e do MST são notórios - no primeiro, temendo perder votos dos religiosos, chegou a prometer aos chefes das igrejas católica e evangélica que não proporá a legalização; no segundo, vestiu o boné da instituição depois de ter prometido que não faria isso.

Dilma Vana Rousseff, 62 anos, quase 63 (ela faz aniversário no dia 14 de dezembro), assumirá o cargo mais importante da República sob o signo da desconfiança. Sua trajetória no governo Lula mostra, no entanto, que tem sido assim com ela desde o início. Originária do PDT, de Leonel Brizola, Dilma só ingressou no PT em 2001, quando era secretária de Energia do então governador Olívio Dutra, no Rio Grande do Sul. Naquele momento, ganhou notoriedade por negociar, com o governo federal, a exclusão do Estado do racionamento de energia.

No ano seguinte, após a primeira eleição de Lula, participou da equipe de transição como regra três na área de energia. Os nomes fortes para assumir os cargos mais importantes na área de Minas e Energia em 2003 eram de petistas históricos - Luiz Pinguelli Rosa e Ildo Sauer, ambos professores universitários e especialistas no tema. Trabalhando intensamente nos bastidores, quem ganhou o cargo mais importante, no entanto, foi Dilma.

Nomeada ministra, ela recebeu a incumbência de criar um novo modelo para o setor elétrico, que, naquele momento, após o apagão de 2001, se encontrava fragilizado. O novo modelo tinha o desafio de afastar o risco de racionamento e, ao mesmo tempo, de atrair novos investimentos. A então ministra tomou uma decisão corajosa: a de reformar o modelo deixado pelo presidente Fernando Henrique Cardoso, em vez de eliminá-lo.

O mercado livre de energia, em que os grandes consumidores escolhem o seu fornecedor, floresceu justamente no governo Lula. Se por um lado o novo modelo não reestatizou o setor de geração, por outro não permitiu a sua privatização completa. Rendeu críticas no setor privado, que rejeita a modicidade tarifária como principal critério dos investimentos em geração hidrelétrica, mas afastou os riscos de racionamento.

Dilma travou uma batalha particular com Pinguelli Rosa e Sauer. A decisão de apenas reformar o modelo energético provocou fissuras nas relações da ministra com petistas históricos. Sauer tornou-se um crítico ácido das políticas da ministra. Imaginando que tinha o respaldo do presidente, ele rejeitou as diretrizes de Dilma para a política de gás e brigou com ela até perder o cargo, quatro anos e oito meses depois.

Ex-guerrilheira e marxista, a presidente eleita tem hoje boa relação com o setor privado. Admira empresários empreendedores, como Jorge Gerdau e Antônio Ermírio de Moraes, e defende, com veemência, a ideia de que o Brasil precisa ter campeãs nacionais, em várias áreas, para competir internacionalmente. "A Dilma está num processo de transição. Partiu de um ponto de achar que o lucro era pecado para um extremo pragmatismo. É muito inteligente, antenada e evolui", diz um auxiliar direto do presidente Lula.

Em julho de 2005, no auge do escândalo do mensalão, o destino levou Dilma para o centro do poder em Brasília. Com a queda do então ministro da Casa Civil, José Dirceu, foi escolhida para substituí-lo. A primeira opção de Lula era Antônio Palocci, então ministro da Fazenda, mas, temeroso de concentrar num só auxiliar o comando da política e da economia em seu governo, o presidente escolheu Dilma.

A então ministra foi a protagonista, quatro meses depois, do episódio que marcou o início de uma inflexão no governo Lula. Naquela ocasião, o presidente vivia o seu pior momento. Por causa do mensalão, a popularidade caíra a 25%, o menor índice em oito anos. O governo estava sem rumo. Numa tentativa de reabrir o diálogo com a oposição para acalmar os ânimos e evitar pedidos de impeachment, Palocci e o ministro do Planejamento, Paulo Bernardo, propuseram o aprofundamento do ajuste fiscal iniciado três anos antes.

Dilma chegou a participar das primeiras conversas, mas, no intervalo entre uma e outra reunião, deu entrevista a um jornal, chamando de "rudimentar" a proposta em elaboração. O ataque foi a senha de que Lula precisava para rejeitar definitivamente o projeto. Dali em diante, não se falou mais em contenção de gastos públicos e o presidente, com a ajuda de Dilma, moldou o que seria o governo nos anos seguintes - a ampliação da transferência de renda, com a adoção de uma política generosa de correção do salário mínimo; e o deslocamento do tema investimento público, com o lançamento do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), para o centro da agenda do país.