Título: Indústria teme ação gradual no câmbio
Autor: Ribeiro , Ivo ; Fontes , Stella
Fonte: Valor Econômico, 01/11/2010, Politica, p. A10
Empresários: Desoneração de impostos para novos investimentos também estão entre os pedidos do setor
Empresários de diferentes segmentos estão convencidos de que está em curso um processo de desindustrialização da economia brasileira e apontam duas áreas de ação imediata para a presidente eleita Dilma Rousseff - câmbio e desoneração do investimento produtivo. Empresas que exportam ou que concorrem com produtos importados, contudo, temem que a política cambial da presidente eleita não traga mudanças significativas em relação aos últimos oito anos, e continue prejudicando a competitividade do produto local.
Segundo um representante do setor siderúrgico, a vitória de Dilma não trará mudanças significativas em relação aos últimos oito anos na política monetária, voltada para controle da inflação. Os programas de infraestrutura, com destaque para o Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), serão fortalecidos, pois foram definidos como prioridades, mas o que se espera é que sejam acelerados.
Um ponto fundamental para o setor é criação de mecanismos para conter a entrada desenfreada de material importado que "come" mercado das empresas locais que acabam não se apropriando do crescimento do consumo no país. "Isso afeta os planos de investimentos das empresas". O governo teria que agir de forma urgente nas áreas tributária, fiscal e cambial. Uma medida seria acabar com a guerra fiscal dos Estados.
Embora o câmbio seja uma das principais variáveis para o desempenho da indústria de celulose e papel - é exportadora de quase tudo que se produz no país -, para o presidente da Suzano Papel e Celulose, Antonio Maciel Neto, o novo governo deve preocupar-se, prioritariamente, com a redução dos obstáculos a novos investimentos no país. "A desoneração dos investimentos produtivos deve ser a pauta prioritária, um assunto a ser tratado já nos 100 primeiros dias de gestão", afirma. Segundo Maciel, o valor recolhido em impostos quando da execução de investimentos pela indústria corresponde a cerca de 17% do orçamento. Contudo, no longo prazo, apenas 6% dos tributos pagos retornam ao caixa da empresa por meio de créditos fiscais.
A vitória de Dilma não trará surpresa à indústria mineral, embora o setor veja restrições em seu governo. "O novo marco regulatório do setor, que está indo ao Congresso para aprovação, foi criado e discutido no governo Lula", afirma um empresário. No câmbio, a preocupação das empresas exportadoras é que se mantenha uma política mais suave, sem medidas mais ousadas para desvalorizar o real. "Dilma fará isso de forma mais gradual", diz a fonte.
O setor de vestuário concorda. A Associação Brasileira do Vestuário (Abravest) informa que está muito preocupada com a vitória de Dilma Roussef para presidente por conta da manutenção da atual política econômica para o setor de vestuário que permite a entrada de produtos importados no mercado brasileiro. "A Dilma vai manter a atual política. Isso me preocupa porque se ela realmente continuar permitindo a importação dessa maneira, a indústria nacional de vestuário será dizimada em cinco anos", disse Roberto Chaddad, presidente da Abravest.
O empresário Elcio Jacometti, presidente da calçados Jacometti, espera que o novo governo crie condições para que o setor "brigue de igual para igual" com outros países. "O principal problema é, de longe, o câmbio. Não temos até hoje uma política de exportação assim como, até agora, não saiu do papel o projeto de desonerar a folha de pagamento dos setores", diz ele. "Ninguém quer subsídio, mas condições de se manter na briga", diz ele. O empresário diz que não está "criticando" o governo, tanto que elogia a decisão da Câmara de Comércio Exterior (Camex), deste ano, de aplicar sobretaxa sobre importação de calçados chineses, acusados de preços artificialmente baixos e de competição desleal.
Beneficiado indiretamente pelo câmbio desvalorizado, o setor farmacêutico, grande importador de matéria-prima, não faz muito coro à maioria dos empresários que pede medidas firmes nesse quesito. "Acredito na força do mercado", disse Rubens Pedrosa Jr, presidente do laboratório AstraZeneca no Brasil. Segundo ele, o desafio do governo é fortalecer a democracia, "ainda jovem no Brasil" e promover a reforma tributária.
Para representantes da indústria de autopeças, a vitória de Dilma e a expectativa de continuidade na política econômica de um importante interlocutor, como o foi o ministro do Desenvolvimento (MDIC), Miguel Jorge, é bem vista. Segundo fonte do setor, o governo Lula foi "muito assertivo" ao reduzir o Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) incidente sobre automóveis e ao anunciar o fim gradual do redutor de 40% que é aplicado sobre o Imposto de Importação de componentes comprados no exterior por montadoras e sistemistas. "É positivo saber que o risco de que se volte atrás em alguma medida, como a do fim do redutor, é menor", afirma.
Para o presidente da Associação Brasileira da Indústria Elétrica e Eletrônica (Abinee), Humberto Barbato, as discussões com a nova presidente se concentrarão em câmbio e política industrial. "É preciso conter o processo de desindustrialização que está em curso no país. Se medidas não forem tomadas teremos muitas empresas fechando nos próximos dois anos", diz. (Colaboraram Beth Koike e Gustavo Brigatto)