Título: Para mercado, financiamento de longo prazo é desafio
Autor: Lopes , Fernando ; Batista , Fabiana
Fonte: Valor Econômico, 01/11/2010, Politica, p. A11
Ajuste fiscal, reforma tributária, incentivo ao crescimento econômico e "parceria" com o mercado para garantir financiamento de longo prazo aos investimentos produtivos são as maiores demandas listadas pelo setor financeiro à nova presidente do Brasil. O desafiador cenário internacional também é alvo de preocupação, mas os executivos consultados pelo Valor acreditam que o país tem força para resistir aos trancos externos que podem ser decorrentes de programas para reanimar as economias industrializadas, às quais serão impostos, adicionalmente, severos cortes de gastos.
Para a Federação Brasileira das Associações de Bancos (Febraban), o Brasil avançou muito ao longo dos últimos anos, consolidando a estabilidade macroeconômica, retomando o crescimento e ampliando de forma significativa os programas sociais. "Isso tudo num ambiente de democracia plena e de fortalecimento das instituições", avalia. Por isso, para a entidade, além de preservar todas estas conquistas, o próximo governo tem dois grandes desafios.
O primeiro, de acordo com a Febraban, é conseguir ampliar expressivamente os investimentos na infraestrutura do país. "Portos, aeroportos, estradas, ferrovias, tudo parece estar no limite, e sem investimentos maciços não será possível sustentar o nosso crescimento", segundo a entidade. Para realizar todos esses investimentos, afirma a Febraban, o país precisará de recursos de longo prazo, já que a poupança pública não será suficiente. Será necessário atrair mais poupança privada e externa para o financiamento de longo prazo. "O novo governo certamente terá um papel central na criação das condições para atrair esses investidores."
O segundo grande desafio do novo governo está no campo da educação e da formação de mão de obra, diz a Febraban. Aqui também a entidade avalia que "avançamos bastante nos últimos anos, especialmente no campo da inclusão, pois hoje praticamente todas as crianças em idade escolar estudam e a educação entrou na agenda do país". O próximo passo é o desafio da qualidade, em especial no setor público.
Para Marcelo Giufrida, presidente da Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima), além de consolidar as conquistas do país nos últimos anos, um dos maiores desafios da nova presidente será atuar para aumentar o potencial de crescimento da economia brasileira. "Na Anbima, temos discutido profundamente esse tema, e nossa convicção é que o mercado de capitais terá um papel essencial nesse processo", diz.
O presidente da Anbima considera que hoje existem condições para o governo reduzir os estímulos fiscais que foram necessários para combater os impactos da crise financeira. "O governo poderia levar a cabo plenamente a política fiscal anticíclica, retirando esses estímulos e abrindo espaço para um afrouxamento monetário no Brasil. A redução dos juros contribuiria tanto para mitigar parte da pressão sobre o câmbio, que tem preocupado os brasileiros, quanto para o alongamento de prazos dos instrumentos de financiamento privado no Brasil."
O presidente da BM&FBovespa, Edemir Pinto, considera desejável que a presidente da República, além de manter os três pilares de estabilização macroeconômica - metas de inflação, câmbio flexível e responsabilidade fiscal -- coloque a poupança interna e o estímulo aos investimentos privados como prioridade em sua agenda. Para isso, lembra, será necessário que faça o ajuste fiscal e a reforma tributária e busque soluções de parceria com a iniciativa privada.
Na sua avaliação, é importante, por exemplo, mudar a forma de tributar os investimentos em ações e reduzir os custos regulatórios e de tributos para as pequenas e médias empresas, estimulando o empreendedorismo no Brasil e permitindo, assim, seu acesso ao mercado de capitais brasileiro. "O crescimento do número de poupadores em ações de companhias na Bolsa é fundamental para democratizar o capital e melhorar a distribuição de renda no país, a partir da geração de mais empregos e da participação dos trabalhadores brasileiros nos lucros de nossas empresas", comenta.
Patrick de Larragoiti Lucas, presidente do Conselho de Administração da SulAmérica Seguros, considera que o novo governo não se atreverá a retroceder na política econômica, programas sociais e de distribuição de renda que, por sinal, têm beneficiado enormemente o mercado segurador e é a grande aposta de crescimento do setor.
Marco Antonio Rossi, presidente da Bradesco Seguros, afirma que a projeção de crescimento para 2011, de 4%, feita pela área de análise do grupo Bradesco e que orienta toda a atividade do banco e da seguradora, já considera um possível ajuste fiscal. E que mesmo assim, as perspectivas são de crescimento de dois dígitos do mercado de seguros. "O cenário para seguros é virtuoso", afirma.
Marcelo Mesquita, sócio da Leblon Equities, gestora de R$ 450 milhões em fundos de investimento em ações, acredita que com o elevado capital político, natural do primeiro ano de qualquer presidente, algumas reformas vão andar, e a primeira da fila, na opinião dele, é a tributária.
José Marcio Camargo, sócio da Opus Investimentos, gestora de R$ 1 bilhão em recursos de terceiros, acha que o Brasil precisaria reduzir a taxa de juros para desestimular a entrada de recursos externos e reduzir a pressão de valorização do câmbio, porém isso só é possível com um ajuste fiscal. A nova presidente "vai ter que fazer um ajuste fiscal", afirma Camargo. Foi o que fizeram, segundo ele, Fernando Henrique Cardoso e Luiz Inácio Lula da Silva em seus primeiros mandatos.