Título: Relegado, campo centra fogo no câmbio
Autor: Lopes , Fernando ; Batista , Fabiana
Fonte: Valor Econômico, 01/11/2010, Politica, p. A11
Empresários: Lideranças reclamam que setor foi excluído da campanha, mas confiam em seu peso econômico
Pouco abordado no período de propaganda eleitoral gratuita e nada discutido nos debates entre os postulantes à Presidência, o setor de agronegócios confia em seu peso econômico e no fortalecimento de sua organização política para driblar o que considerou um descaso e ver suas demandas atendidas durante o governo de Dilma Rousseff.
"Não vi nenhum programa que falasse de política para a agricultura como posição estratégica. Não houve nenhuma manifestação clara ou política de longo prazo. Só se falou de agricultura familiar como solução social", diz o presidente da Organização das Cooperativas Brasileiras (OCB), Márcio Lopes de Freitas.
A atual agenda do campo traz poucas mudanças em relação a uma lista permanente de reivindicações formada por pedidos como ampliação do crédito rural e abertura de novos mercados para as cadeias exportadoras, além de questões estruturais como redução da carga tributária e melhorias da infraestrutura.
No capítulo cambial, porém, o volume das críticas aumentou e o início da gestão Dilma tende a ser bombardeado por estudos com os aspectos que o setor considera negativos sobre o movimento, num raciocínio que busca anular os benefícios inflacionários do real forte pelos efeitos negativos em regiões muito dependentes das cadeias exportadoras. No primeiro e no segundo turno, o fator câmbio rendeu mais votos a José Serra do que a Dilma em Estados como Paraná e Mato Grosso, que lideram a produção de grãos no Brasil.
"Dilma terá de ouvir o setor", diz Cesário Ramalho, presidente da Sociedade Rural Brasileira (SRB). Ele lembra que o agronegócio do país ganhou ainda mais relevância no exterior nos últimos anos, mas critica o tratamento recebido em alguns fóruns domésticos de discussão.
"Temos condições de nos posicionar e já encontramos interlocutores para isso", diz Ramalho, em referência ao ex-ministro Antonio Palocci, com quem se reuniu pela última vez há dois meses, "com boa aceitação". Já Freitas, da OCB, diz que tentou aproximações com a coordenação da campanha de Dilma e não obteve respostas. Segundo ele, as cooperativas apostam no Congresso para reforçar sua atuação. "Tivemos uma boa eleição, com gente nova, boa. Estamos bem reforçados", disse, referindo-se à bancada ruralista.
Uma das lideranças dessa bancada, e identificada com a oposição ao governo Lula e a Dilma, a presidente da Confederação da Agricultura e Pecuária (CNA), senadora Kátia Abreu (DEM-TO), limita-se a dizer que haverá uma "relação institucional" do setor com a presidente. "A CNA está acima de qualquer partido e nós teríamos relação institucional com qualquer dos eleitos".
Eleitor histórico do Partido dos Trabalhadores, Lawrence Pih, presidente do Moinho Pacífico, está entre os que consideram o câmbio prioritário, ao lado das negociações comerciais no Mercosul, já que parte do trigo usado como matéria-prima em sua empresa vem da Argentina. Mas Pih considera pouco provável que a presidente adote uma política abertamente favorável à desvalorização do real. "É um desafio do novo governo: manter um dólar compatível com o custo de produção".
Arlindo Moura, presidente da SLC, maior empresa agrícola do país, espera que Dilma Rousseff não desperdice a oportunidade de realizar reformas política e tributária, mesmo acreditando que ela terá mais dificuldades do que Lula para tal. "O Lula era maior que o PT, mas perdeu a oportunidade. Tenho a expectativa de que Dilma toque essas reformas, que estão atrasadas há anos". O executivo também defende que a presidente ajude a pressionar pela aprovação de reformas na legislação trabalhista de forma a adaptá-las à realidade do trabalho no campo.
Como Roberto Rodrigues, ex-presidente da SRB e primeiro ministro da Agricultura de Lula, Cesário Ramalho defende a integração das políticas para pequenos, médios e grandes agricultores, pouco observada nos últimos anos. O governo atual ampliou o crédito para as agriculturas empresarial e familiar, mas forçou pouco a ampliação do diálogo entre as distintas correntes.
Também há dúvidas no setor quanto às interferências diretas do governo em questões como a compra de terras por estrangeiros ou o redesenho de segmentos como fertilizantes e frigoríficos. No primeiro, o governo Lula pressionou a Vale a assumir a liderança da produção nacional, o que foi feito; no segundo, grandes grupos como JBS, Marfrig, Sadia e Perdigão foram beneficiados por um nível de apoio do BNDES não observado para os menores.
Antônio Carlos Camardelli, presidente da Associação Brasileira da Indústria dos Exportadores de Carnes (Abiec), prega a continuidade de políticas em curso e acredita que, passada a crise, o BNDES estenderá o suporte a empresas de pequeno e médio portes em dificuldades. Luciano Vacari, superintendente da Associação dos Criadores de Mato Grosso (Acrimat), concorda com Camardelli sobre essa necessidade, mas vai além: "O atual governo avançou bastante em algumas políticas, mas é preciso de mais. Esperamos que a nova presidente enxergue Mato Grosso [que reúne o maior rebanho bovino do país] como o grande produtor de alimentos do Brasil", afirma.