Título: Poder de compra maior pesou na decisão do eleitor
Autor: Agostine , Cristiane
Fonte: Valor Econômico, 01/11/2010, Politica, p. A12
Eleições: Privatização e experiência administrativa ficam em segundo plano, aponta pesquisa do dia 28
Depois de quatro meses de campanha eleitoral, com debates marcados por questões morais e religiosas, o que moveu os eleitores na hora de definir o voto foi o bolso. A maioria da população escolheu Dilma Rousseff (PT) por ela ser a candidata que apresentou mais condições de aumentar o consumo, de reduzir os impostos sobre alimentos e bens de consumo e de gerar empregos. Esse é o resultado de pesquisa feita pelo Instituto Análise para tentar mapear as razões que levaram os eleitores a optar por um dos candidatos na disputa presidencial.
Os eleitores identificaram Dilma Rousseff (PT) como a candidata que vai ampliar a criação de vagas de emprego, o poder de compra da população e que é a postulante que entende os problemas dos pobres. A petista também foi tida como a que tem mais condições de dar continuidade aos programas do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
José Serra (PSDB) foi visto como o candidato com mais experiência administrativa, com passado limpo e preparado para o cargo. Ex-ministro da Saúde, o tucano foi associado à capacidade de enfrentar os problemas dessa área.
Segundo o sociólogo Alberto Almeida, responsável pela pesquisa do Instituto Análise, a vitória de Dilma se deve à ênfase da campanha petista na promessa de que a candidata vai melhorar a situação financeira da população. "Nesta eleição ganhou aquele que mostrou que pode proporcionar um poder de consumo maior", disse Almeida. "O eleitor está preocupado em escolher quem vai lhe proporcionar uma vida melhor", afirmou. Na análise de Almeida, Serra errou na comunicação de sua campanha justamente por não valorizar o tema do consumo.
Quando os entrevistados foram questionados sobre a capacidade dos candidatos para assumir a Presidência, 82,1% disseram que Serra tinha essa capacidade. Em relação a Dilma, o percentual era de 58,1%. Já quando a pergunta era sobre o poder de compra no próximo governo, a petista obteve vantagem em relação ao postulante tucano. A pesquisa mostra que 61,4% disseram que Dilma deve aumentar o consumo dos brasileiros e 45,8% disseram que Serra poderá fazer isso. "A economia, traduzida no consumo, é o que importa", resumiu o sociólogo.
A imagem dos eleitores sobre os candidatos pouco mudou no segundo turno, de acordo com o levantamento. As discussões travadas nos programas eleitorais sobre a experiência administrativa dos postulantes e sobre privatização não ajudaram a ganhar novos eleitores. O debate sobre aborto e religião também não foram suficientes para alterar de forma significativa a percepção sobre os candidatos. "Esses temas só fizeram com que os eleitores que já eram dos partidos mantivessem o apoio aos candidatos. Não levou mais votos nem para o PT nem para o PSDB", disse Almeida.
A imagem dos entrevistados em relação aos postulantes foi mapeada diariamente nas duas últimas semanas e seguiu a mesma tendência durante todo o período da pesquisa. Os resultados são os da última sondagem, no dia 28 de outubro, dois dias antes da eleição.
O resultado do levantamento sobre as principais razões do voto é semelhante ao obtido pelo instituto em 2006, quando o presidente Luiz Inácio Lula da Silva disputou com Geraldo Alckmin (PSDB).