Título: Produção cai, mas uso da capacidade instalada segue elevado
Autor: Villaverde , João
Fonte: Valor Econômico, 03/11/2010, Brasil, p. A4

A queda da produção da indústria desde março ainda não foi suficiente para afetar o nível de utilização da capacidade instalada no país, que continua elevado, chegando a 85,2% em outubro, segundo a última Sondagem Industrial da Fundação Getulio Vargas (FGV). Economistas, contudo, ainda esperam uma queda mais acentuada do índice por conta da maturação de investimentos e da continuidade das contratações.

"A tendência para os próximos meses do ano é que o nível de uso da capacidade instalada da indústria caia um pouco", diz Douglas Uemura, economista da LCA Consultores, mesmo considerando a estimativa da consultoria de que a produção cresça 0,5% em setembro sobre agosto. O movimento é positivo, segundo ele, porque, como o uso da capacidade está acima da média histórica, de 83,2%, o crescimento poderia significar pressões inflacionárias. No levantamento da Confederação Nacional da Indústria (CNI), o uso da capacidade instalada vem caindo lentamente desde maio.

"O que se espera é uma redução do indicador neste ano, já que dados da produção de bens de capital indicam aumento da capacidade de produção", comenta Rafael Bacciotti, analista da Tendências Consultoria.

A produção industrial de agosto foi 2,6% inferior a de março, mês que registrou pico de atividade industrial deste ano, mas a sondagem da FGV mostra leve aumento da utilização da capacidade instalada das empresas, passando de 84,3% para 84,9%. Essa é uma situação não usual, já que a queda da produção, aliada ao avanço nas contratações, deveria resultar num menor aproveitamento dos recursos das companhias.

Economistas ouvidos pelo Valor não conseguem detectar uma razão clara para esse movimento. Para Aloisio Campelo, coordenador de sondagens conjunturais do Instituto Brasileiro de Economia (Ibre) da FGV, há um descompasso entre a percepção dos empresários sobre o uso da capacidade instalada e o aumento da produção verificado em março, já que o levantamento foi realizado no meio do mês, o que poderia ter deixado escapar parte do aquecimento. "A comparação mensal pode ser complicada nesses casos. Se abordássemos as indústrias até o fim do mês, talvez tivéssemos captado o aumento do uso da capacidade em março", diz ele.

A avaliação de Campelo é baseada no comportamento do nível de uso da capacidade instalada em abril, que cresceu 0,8 ponto percentual, chegando a 85,1%, o que poderia ter refletido o crescimento da produção em março, já que em abril houve recuo de 1,12% na atividade da indústria. Em maio, o índice de uso da capacidade caiu para 84,9%. Na média móvel trimestral, ele se mantém no patamar de 85% há seis meses. "Há seis meses a indústria está andando de lado", diz Campelo.

A atividade da indústria foi marcada neste ano por um pico em março - cujo aquecimento é atribuído principalmente ao fim da redução do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) sobre automóveis e eletrodomésticos da linha branca -, uma arrefecida em abril, maio e junho, e novo aquecimento em julho por influência da Copa do Mundo. Em agosto, o recuo da produção foi de 0,1%.