Título: PMDB pressiona e Temer ganha espaço político
Autor: Ulhôa , Raquel ; Junqueira , Caio
Fonte: Valor Econômico, 03/11/2010, Politica, p. A5

A inclusão do presidente do PMDB, da Câmara dos Deputados, e vice-presidente eleito Michel Temer na coordenação política da equipe de transição, ontem, foi uma resposta à reação de alguns pemedebistas que criticaram a atitude petista de não chamar qualquer representante da legenda na primeira reunião para definir os nomes da equipe de transição, anteontem. Dela participaram apenas a presidente eleita, Dilma Rousseff (PT), e seus aliados mais próximos no partido, como os deputados Antonio Palocci e José Eduardo Cardozo, e o presidente da sigla, José Eduardo Dutra. Ficaram definidas ali as funções de cada um na transição.

O episódio causou insatisfação em boa parte do PMDB, que se viu preterido das grandes decisões do futuro governo horas após anunciado o resultado das urnas. Para acalmar o partido, Dutra e Temer iriam jantar ontem à noite para iniciar as negociações entre os dois partidos. A ideia da conversa, marcada pelo petista, era dar conhecimento a Temer da concepção de governo planejado por Dilma e do papel que o PMDB deveria ter nele.

O que irá ouvir e o desenho que Dilma e o PT planejam para o PMDB a partir de 2011, porém, pode ser fruto de divergências constantes entre os dois partidos. Isso porque, como sócio-fundador da futura gestão Dilma, a legenda pretende reivindicar um assento no chamado "núcleo duro" do governo, como são considerados os ministérios da Casa Civil, das Relações Institucionais, da Fazenda e do Planejamento. Tendo o vice-presidente eleito, Michel Temer, a maior bancada de senadores e a segunda de deputados, atrás do PT, o comando do PMDB avalia que participar das decisões sobre políticas de governo é um pleito legítimo.

O que é bem diferente do papel do partido no atual governo, quando aderiu apenas em 2007, após a reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva. Já para o próximo ano, o partido gostaria de, no mínimo, manter o número de ministérios (seis) que ocupa no atual governo, mas quer negociar trocas. Atualmente, o PMDB tem titulares nas pastas da Saúde, da Defesa, de Minas e Energia, da Integração Nacional, das Comunicações e da Agricultura - além da chefia do Banco Central. Um ministério cobiçado pelos pemedebistas é o das Cidades, atualmente sob o comando do PP.

Independentemente da cota que couber ao partido na Esplanada dos Ministérios, a direção nacional do PMDB já tomou uma decisão: não vai aceitar que ministros sejam indicados à revelia da legenda e figurem como seus representantes. É o que acontece hoje com os ministérios da Saúde, da Defesa e da Agricultura, cujos titulares são considerados no partido como "ministros do Lula".

Por enquanto, cargos e nomes estão apenas no campo das especulações. O PMDB aguarda ser chamado para essa discussão, mas sabe que é cedo. A preocupação do momento é fortalecer o partido para essa negociação, já que, exceto pela Vice-Presidência, esse fortalecimento não aconteceu pelas urnas. Os partidos que mais cresceram foram o PSDB - que elegeu oito governadores, entre eles os dos dois maiores colégios eleitorais do país, São Paulo e Minas Gerais - e o PSB, que ganhou seis Estados e será um aliado de Dilma que certamente ganhará espaço na composição do governo.

Por isso, confirmada a vitória da chapa Dilma-Temer, os dirigentes do PMDB iniciaram uma intensa articulação - pessoalmente ou por telefone - para tentar manter o partido unido em torno do mesmo discurso com relação à futura participação no governo. Os dirigentes se dizem em "reunião permanente". Uma das preocupações é evitar que as bancadas da Câmara e do Senado voltem a divergir, como ocorria historicamente entre os pemedebistas. Nesta quarta-feira todos devem se encontrar em Brasília.

Na pauta das conversas, um dos temas é a eleição das futuras presidências da Câmara dos Deputados e do Senado. Embora o líder da bancada na Câmara, Henrique Eduardo Alves (RN), reivindique a presidência da Casa, a cúpula partidária avalia que o PT, cuja bancada será a maior, deverá ficar com o comando no primeiro mandato (2011-12). A intenção é negociar o rodízio para que o PMDB ocupe o cargo no biênio seguinte. Com o maior número de senadores, o PMDB deverá presidir o Senado.

Se não presidir a Câmara, Henrique Alves é um dos nomes fortes do PMDB para ocupar um ministério no governo Dilma. Outro nome dado como certo é o de Moreira Franco, que foi designado pelo partido para integrar a coordenação da campanha da candidata petista.

Pela experiência de Michel Temer, que preside a sigla e a Câmara dos Deputados, o tamanho e o profissionalismo do partido no processo de articulação política e seu perfil mais conciliador, o PMDB acredita que terá papel estratégico nas relações do governo com o Congresso.

Temer lançou internamente a ideia de ampliar o quorum de deliberação sobre a participação no governo, envolvendo também novas lideranças eleitas. Seriam submetidos a esse "fórum" critérios e premissas de ocupação de cargos - e não nomes. A intenção é dar mais "legitimidade" ao processo e, em contrapartida, obter do partido todo maior compromisso com as políticas de governo.

O PMDB não gostou do tratamento recebido do PT e da candidata durante a campanha. Um dos exemplos é do ex-ministro Geddel Vieira Lima, que disputou o governo da Bahia com o compromisso de Lula e Dilma de tratamento igualitário em relação ao governador Jaques Wagner (PT), e não foi o que aconteceu. Os dois abandonaram a candidatura Geddel - hoje um dos nomes da cúpula partidária para voltar ao governo.

Além disso, os pemedebistas reclamaram do papel secundário de Temer na propaganda e, ainda, da pouca participação nas decisões da campanha. Por tudo isso, o PMDB quer agora se fortalecer para as conversas de formação de governo - e para os embates que virão. O partido tem um consolo. Como diz um dirigente, se o partido não for bem tratado, Dilma não poderá viajar nem para a Bolívia, já que o vice é do PMDB.