Título: Marina e insatisfação levaram a virada de Serra no RS, ES e GO
Autor: Zanatta , Mauro
Fonte: Valor Econômico, 03/11/2010, Politica, p. A8
Atuação fraca do governo Luiz Inácio Lula da Silva, o discurso centrado na mobilidade social e na erradicação da pobreza da presidente eleita, Dilma Rousseff (PT) e migração dos votos de Marina Silva (PV) foram os principais motivos para a virada no segundo turno do tucano José Serra no Espírito Santo, Rio Grande do Sul e Goiás.
Segundo o governador Renato Casagrande (PSB), eleito no Espírito Santo em primeiro turno com 82,3% dos votos, um dos recordes da eleição para o cargo no país, os eleitores capixabas estavam aborrecidos com o governo federal, por conta da demora na definição das obras de expansão do novo terminal de passageiros do aeroporto de Vitória - um dos únicos do país que ainda não passou por modernização - e o estado ruim do trecho da rodovia BR 101 que atravessa o Estado.
Ambos os projetos estão na agenda do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), porém não saem do papel por distintas razões. "O debate local é a necessidade de investimentos em infraestrutura, principalmente o aeroporto e a rodovia. Há um passivo do governo federal aqui", afirmou Casagrande por telefone.
Dados oficiais do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), mostram que Serra foi o mais votado no Espírito Santo no segundo turno, com 50,83% dos votos. Dilma teve 49,17%. No primeiro turno, Dilma ficou à frente de Serra por uma margem um pouco maior: 37,25% contra 35,44%.
Quando perguntado sobre o motivo de não ter conseguido transferir sua boa votação para a candidata a presidente que apoiava, Casagrande respondeu que foi "pelo mesmo motivo que [o senador eleito] Aécio Neves não conseguiu transferir seus votos para José Serra". "O eleitor tem vontade própria, não necessariamente segue o que diz a liderança regional."
Já no Rio Grande do Sul, o discurso de Dilma e a adesão da maioria do PMDB estadual à campanha do PSDB, permitiu a vitória de Serra no segundo turno no Estado. A avaliação é do professor de pós-graduação em Ciência Política da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), André Marenco, para quem a migração, para Serra, da maior parte dos votos dados pelos gaúchos para Marina Silva (PV) no primeiro turno foi outro fator determinante para o resultado do dia 31.
Serra obteve 2,6 milhões de votos , abaixo dos 3 milhões de Dilma, enquanto Marina recebeu 725,6 mil, no primeiro turno. No dia 31, Serra somou 3,2 milhões de votos e ultrapassou a petista, que evoluiu para 3,1 milhões. O crescimento somado de ambos chegou a 747,3 mil votos, pouco acima da votação da candidata do PV no primeiro turno, mas Serra ficou com 85% do total.
O objetivo não alcançado do PT gaúcho era pelo menos equiparar o desempenho de Dilma no segundo turno aos 3,4 milhões de votos obtidos por Genro no dia 3. "Eu pude fazer um discurso específico para o Estado, centrado na nossa base produtiva, mas Dilma teve que fazer um discurso nacional, sem essas especificidades", explica o governador eleito. Mesmo assim, ele considera "positiva" a votação local da presidente eleita, acima dos números do próprio presidente Lula no Estado em 2006 (2,1 milhões de votos no primeiro turno e 2,8 milhões no segundo).
Também foi a migração de votos de Marina para Serra o principal motivo da virada do tucano em Goiás. No dia 3 de outubro, a candidata do PV teve 529.694 votos (17,18%), Serra, 1.217.203 (39,48%), e a petista, 1.301.985 eleitores.
O diretório goiano do PV, que no primeiro turno já não havia apoiado a candidatura de Íris Rezende, com a qual o PT estava coligado, declarou apoio formal ao PSDB e a seus candidatos, Marconi Perillo e José Serra no segundo.
A adesão fez com que a maior parte dos mais de meio milhão de votos de Marina fossem para Serra, que obteve 273.165 votos a mais que no primeiro turno (cresceu 11,27 pontos). Já Dilma ganhou 144.193 (7,02%).
Como a diferença entre ambos havia sido pequena no primeiro turno - 84.782 (2,75% dos votos válidos) - a migração dos votos em maior peso para Serra foi suficiente para a virada.