Título: Cinturão agrícola reforça oposição ao PT
Autor: Zanatta , Mauro
Fonte: Valor Econômico, 03/11/2010, Politica, p. A8
Os eleitores do "cinturão agrícola" brasileiro optaram pela oposição à presidente eleita Dilma Rousseff (PT). Reforçados pela atuação da renovada bancada ruralista, os produtores demonstraram a insatisfação com a atenção dispensada pelo governo de Luiz Inácio Lula da Silva e as raras menções de Dilma ao campo durante a campanha.
A presidente eleita foi derrotada pelo adversário tucano José Serra nos Estados identificados como principais "celeiros" do país. No primeiro turno, Dilma perdeu em Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Paraná, Santa Catarina, Rondônia e Roraima, além de São Paulo, onde os votos do rico interior rural desaguaram de forma maciça na candidatura tucana.
No segundo turno, a derrota de Dilma para Serra ampliou-se para Goiás e Rio Grande do Sul. Ainda assim, Dilma manteve dianteira em microrregiões agrícolas influentes, como o Triângulo Mineiro, o Sudoeste do Paraná e Oeste Catarinense, a Campanha Gaúcha e parte do Sul de Mato Grosso.
De perfil mais conservador, e mais avesso ao PT, o eleitorado desse interior também ficou mais suscetível à mistura de política com religião no debate sobre aborto e às sucessivas acusações de corrupção e nepotismo na Casa Civil até então administrada por Erenice Guerra, auxiliar direta da presidente eleita.
A diferença favorável a Serra nesses oito Estados chegou a 1,54 milhão de votos no dia 31 de outubro - no primeiro turno, havia sido de 197 mil votos. Esse "cinturão agrícola" responde por 46,5% do PIB rural do país. Somado a São Paulo, chega a representar 62,6% da riqueza do setor.
Aliados de Dilma avaliam que foram os temas cruciais do cotidiano do setor rural que radicalizaram a campanha contra ela no campo. "Não somos contra o governo, mas contra as invasões de terra que o Lula não impediu", diz o presidente da Sociedade Rural do Oeste do Paraná, Erwin Soliva. Além disso, há questões ideológicas que separam a agricultura familiar da empresarial. "Tem um preconceito muito forte no governo", avalia o presidente da Federação da Agricultura de Goiás (Faeg), José Mário Schreiner. "É como se a familiar fosse do bem e a empresarial, do mal. Isso impregnou o governo. Somos um setor sabidamente não reconhecido". E aposta no Legislativo para equilibrar o jogo: "Dos 17 federais, 10 são ligados ao setor. Na Assembleia, temos 14 dos 41 estaduais".
Produtores, lideranças e parlamentares ruralistas afirmam que Dilma Rousseff "não entendeu" questões essenciais ao campo, como direito de propriedade e as alterações nas legislações ambiental, trabalhista, tributária e indigenista.
Mudanças nos critérios de desapropriação para a reforma agrária e a revisão de índices de produtividade no campo radicalizam o setor rural. As recentes perdas com o câmbio e os efeitos sobre a renda rural selaram a opção. "A bancada pegou firme e virou. Foi uma reação mais coordenada com a Ana Amélia [senadora eleita pelo PP]", diz o presidente da federação das cooperativas gaúchas (Fecoagro), Rui Polidoro Pinto.
Nem mesmo as três renegociações de dívida rural, os fartos subsídios à comercialização e a ligeira melhora na infraestrutura e na logística no "cinturão agrícola" mudaram o ânimo do campo. "Lula ajudou muito essa área. Criou expectativas grandes com melhora da logística, a BR-163, o Luz para Todos, as ferrovias", diz o governador reeleito com 51,21% ainda no primeiro turno de Mato Grosso, Silval Barbosa (PMDB). "Trabalhamos muito, arregaçamos as mangas, mas não deu. Só um estudo para abordar isso".
No domicílio eleitoral do governador, Dilma perdeu por 54% a 46% para Serra. Mas outras lideranças discordam: "O Lula fez uma gestão neutra, em ponto morto. O setor sofre há anos e precisa ser passado a limpo. Não tem política agrícola decente, modelo de crédito, seguro e infraestrutura para desenvolvimento", diz Schreiner, da Faeg.
Aliado de primeira hora de Lula e Dilma, o senador eleito Blairo Maggi (PR-MT) ainda não entende a opção do interior. "É a cabeça dura dos produtores. Onde eles predominam, tem um ranço que não dá entender", diz.
Recuperando-se de um diverticulite, Maggi não repetiu suas andanças pelo interior como nas eleições de 2006. "Faltou alguém para coordenar essa área", avalia. No Rio Grande do Sul, Rui Polidoro, da Fecoagro, concorda parcialmente: "Tivemos bons programas federais, positivos. Mas ficaram para trás questões como renda, acesso ao crédito, preços mínimos que descontentaram os produtores", diz.
No Estado do Paraná, a infraestrutura frágil do interior contribuiu para a derrota de Dilma. "Somos um Estado mais conservador, sim. Mas a agricultura tende a votar em quem dá valor à infraestrutura", analisa o presidente da cooperativa Lar, Irineo Costa Rodrigues.
"O porto está esculhambado, as rodovias têm pedágio caríssimo e não são duplicadas. O interior está insatisfeito com tudo isso", descreve Rodrigues. A Lar tem 8,3 mil associados em 12 municípios do extremo-oeste do Paraná.