Título: Troca abrupta na administração seria mal recebida no mercado
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Fonte: Valor Econômico, 05/11/2010, Empresas/Especial, p. B6
De São Paulo
Se na empresa a personalidade do presidente da Vale, Roger Agnelli, pode estar colocando fogo nas relações, no mercado é justamente o contrário. Gestores de investimento, tanto de grandes bancos de varejo como de boutiques especializadas em governança, além de analistas, não veem a menor chance de uma troca na administração ser recebida de maneira neutra. Muito dificilmente o governo conseguiria evitar uma "politização" de uma abrupta mudança na administração.
Para investidores, a personalidade sabidamente intransigente de Agnelli não incomoda tanto, desde que a empresa apresente resultados. Os enfrentamentos com o governo têm até uma leitura positiva, indicando que ele resiste às "invasões políticas".
Não fosse o desgaste político gerado por esse comportamento, o que pode colocar em risco sua posição, a visão dos investidores seria ainda mais positiva. No ano, as ações da Vale não refletem a existência de um temor sobre sua saída: alta de quase 17%, até ontem, ante uma valorização tímida de 4% do Índice Bovespa.
A avaliação de alguns agentes de mercado é que os efeitos em bolsa seriam tão negativos pela saída repentina de Agnelli que o fato não é provável - ou, no mínimo, não tão iminente assim.
Além disso, as recentes aparições de Agnelli, anunciando grandes investimentos e planos, convenceram investidores de que a paz estaria selada com o governo. Especialmente após o plano de investimento recorde para 2011, de US$ 24 bilhões.
O tamanho do impacto sobre o valor da empresa em bolsa, de uma eventual troca na administração, dependeria muito do nome a ser conduzido no lugar e da forma como a modificação for conduzida. Qualquer rastro político pesaria negativamente.
Tal fato, por exemplo, não está contemplado pelos analistas como risco. Entre os analistas listados pela Bloomberg, todos indicam a compra tanto das ações preferenciais (18 acompanhamentos) como das ordinárias (11). Pelas projeções médias desses profissionais, a Vale tem potencial para valer pouco mais de R$ 350 bilhões na BM&FBovespa, comparado aos atuais R$ 273 bilhões atuais.
Chama atenção de investidores mais atentos a questões de governança a falta de um plano de sucessão organizado e conhecido, que deixe a empresa preparada para uma saída de Agnelli, por qualquer eventualidade. É crescente nos meios relacionados ao desenvolvimento das práticas de governança corporativa a importância que os processos de sucessão devem constar da agenda dos principais executivos e do conselho de administração que fiscaliza a atuação desse profissional.
A percepção de que a saída de Agnelli seria uma forma de o PT ampliar sua atuação junto a mineradora está relacionada à recente postura do governo federal com a Petrobras. Ficou a sensação, em especial para os estrangeiros, de que o governo quer "controlar" os passos de grandes companhias de setores estratégicos, extrapolando até mesmo os casos daquelas que são evidentemente estatais.
Entre os investidores, a leitura é que a eleição de Dilma Roussef pode representar um risco político para a Vale. "O mercado vai descobrir que a Vale é estatal", comentou um especialista recentemente, numa informal conversa sobre as eleições e os riscos para o mercado, a respeito de uma eventual troca na gestão.
É também o estrangeiro, como no caso da Petrobras, quem mais teme um aumento do que ele vê como "tentáculos" do governo sobre a mineradora. Especialmente se essa ampliação vier por uma indicação direta na gestão.
A importância do estrangeiro para a formação do "valor" da Vale em bolsa cresceu muito nos últimos anos, conforme a companhia passou a rivalizar com a Petrobras como principal ativo do mercado brasileiro.
O valor de mercado da companhia foi multiplicado por mais de 15 vezes em uma década. Com isso, a participação da empresa no Índice Bovespa neste mesmo período passou de 3,5% para 15% de hoje - acima da Petrobras, cuja participação na composição do indicador está hoje em torno de 11%. A expressividade da empresa no mercado está diretamente ligada a evolução de seu desempenho operacional e financeiro.
Na visão de alguns investidores de peso, para a percepção do mercado de médio e longo prazo seria melhor que o governo ampliasse os royalties sobre o setor - e com isso a arrecadação sobre a companhia. Embora no curto prazo uma notícia como essa pudesse ter um impacto negativo ruim, seria mais simples de justificar, dada a tendência internacional nesse sentido. (GV)