Título: FGV prevê PIB de 4,6% no primeiro ano de Dilma
Autor: Santos , Chico ; Rocha , Janes
Fonte: Valor Econômico, 19/11/2010, Brasil, p. A5
Um dos templos do pensamento econômico ortodoxo no Brasil, a Fundação Getulio Vargas (FGV) está enxergando o primeiro ano de governo da presidente Dilma Rousseff como um período de crescimento econômico com inflação sob controle, contas públicas ajustadas e taxa de juros estabilizada nos atuais 10,75%, em que pese o desejo da presidente de derrubar os juros no menor prazo possível.
O Produto Interno Bruto (PIB) vai crescer 4,6%, sem extrapolar o potencial de crescimento da economia, como os esperados 7,5% deste ano, e a inflação cairá de 5,6% este ano para 4,8%, mantendo um lento caminho em direção à convergência para a meta de 4,5% a ser alcançada em 2012. Na área fiscal, básica para o conjunto das projeções, o governo fará um superávit primário de 3,3% "sem pirotecnia".
Os números constam da primeira projeção de cenários conjunturais que o Instituto Brasileiro de Economia (Ibre), braço de pesquisas econômicas da FGV, está fazendo na sua história. O trabalho, realizado pelos pesquisadores Samuel Pessôa, Sílvia Matos e Gabriel Leal de Barros, será apresentado hoje, durante o seminário "O Brasil no Novo Governo" que será realizado na sede da FGV, no Rio.
Em entrevista ao Valor, Pessôa e Sílvia disseram que as projeções serão trimestrais e que a intenção é trabalhar com cenários de médio e longo prazo, sem concorrer com as projeções de curto prazo de instituições bancárias e consultorias.
O modelo econométrico adotado pelo Ibre foi alimentado para essas primeiras projeções com números já divulgados pelo governo que assume em janeiro, como a promessa de superávit de 3,3%. "É um governo eleito por ampla maioria e, dado que não tenho grandes informações sobre o futuro ministério e sobre qual será a orientação, a menos que haja alguma informação mais forte na direção contrária, tem-se que acreditar no que as pessoas estão falando", disse Pessôa.
Os economistas da FGV consideram, por exemplo, que o superávit primário será atingido, sem a necessidade de artifícios como o desconto de gastos com investimentos do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) ou o adiantamento de receita pela cessão onerosa à Petrobras de petróleo a ser produzido no futuro, recursos utilizados para fechar as contas públicas deste ano.
Pessôa e Sílvia consideram que a política monetária adotada pelo BC este ano "está essencialmente correta" e que ela será mantida em 2011, com a taxa de juros básica (Selic) permanecendo no patamar atual, garantindo a lenta convergência da inflação para a meta.
Além dos juros apertados, pelo menos outros três fatores ajudarão a conter o perigo inflacionário: um salário mínimo "mais fraco" (R$ 550), ajudando a segurar a alta dos preços do serviços; menos pressão externa sobre os preços das commodities agrícolas, ajudando a controlar os preços dos alimentos; e a inflação mundial, em trajetória declinante.
Os economistas da FGV consideram ainda que o tombo no ritmo do crescimento econômico - que deverá aparecer em dezembro, quando o IBGE divulgar as Contas Nacionais referentes ao terceiro trimestre deste ano - foi suficiente para trazer essa alta para um patamar mais realista, mais próximo do chamado PIB potencial (aquilo que o país teoricamente pode crescer, sem gerar ônus futuros).
Os pesquisadores da FGV trabalham com uma hipótese "um pouco diferente do que os consultores estão trabalhando" e mais otimista quanto ao PIB potencial brasileiro. Ressalvando ser uma hipótese, e não uma informação "rodada" em modelo econométrico, eles avaliam que a crise não afetou de forma permanente a trajetória de crescimento do país além do impacto que vem pelo canal da retração dos investimentos. Eles acreditam que, já no quarto trimestre deste ano, o PIB brasileiro está no limite do potencial, que consideram estar entre 4,3% e 4,4%.
No cenário traçado pelos economistas do Ibre, a guerra cambial travada entre os países para segurar a queda do dólar - e a consequente supervalorização das moedas locais - pode beneficiar o Brasil por um lado. "Fica ainda mais favorável para (o combate) a inflação", disse Silvia.
Por outro lado, a valorização do real continuará prejudicando as exportações, incentivando as importações e piorando, dessa forma, o saldo de transações correntes. Pessôa e Silvia acreditam que o Brasil encerra 2010 com déficit de 2,6% do PIB nas contas externas, número que cresceria para 3,4% do PIB em 2011. Para eles, não haverá problemas para o financiamento dessa conta no ano que vem, mas reforça a conhecida "fragilidade" da economia brasileira: a baixa poupança doméstica.
"Sempre que a economia vai bem e com isso, a taxa de investimento sobe, dado que a poupança doméstica sempre vem atrás, temos que contar com poupança externa para cobrir a diferença entre o investimento e a poupança doméstica." Pessôa diz ainda que é possível um país conviver por longos períodos com saldo em transações correntes negativo - e exemplifica com o caso da Austrália, que mantém déficit de transações correntes em relação ao PIB de 4,5% há 26 anos.
A única ressalva, diz o economista do Ibre, é que a política econômica baseada em poupança externa tem que desestimular ao máximo a dívida externa denominada em moeda estrangeira. "Acho que a política econômica tem que sinalizar com muita clareza para as empresas que o risco cambial é delas, e se elas quebrarem, vão quebrar."