Título: Caixeiro-viajante da Petrobras
Autor: Schüffner , Cláudia
Fonte: Valor Econômico, 22/11/2010, Investimentos, p. D1

Três reuniões pela manhã, almoço com investidores e outras três reuniões à tarde. No fim do dia, viagem para a próxima cidade. Essa foi a rotina dos diretores da Petrobras durante as três semanas em que venderam pelo mundo a capitalização de R$ 120 bilhões da companhia, uma das maiores de todos os tempos. No total, quatro grupos de executivos da estatal, em companhia de banqueiros de investimentos, visitaram 760 investidores no Brasil, Estados Unidos, América Latina, Europa e Ásia. "Entre os dias 4 e 25 de setembro, dormi apenas dois dias em cama", afirma o diretor financeiro e de relações com investidores da Petrobras, Almir Barbassa, ao dar uma dimensão do ritmo alucinante de todo o processo.

Mas o esforço foi recompensado. Depois de rechear o caixa da empresa com R$ 47 bilhões, Barbassa foi eleito executivo do ano pelo Instituto Brasileiro de Executivos de Finanças (Ibef) e também pela Associação Nacional dos Executivos de Finanças, Administração e Contabilidade (Anefac).

O pique demonstrado durante as viagens por Barbassa, de 63 anos, e pelo presidente da companhia, José Sergio Gabrielli, 60, chegou a surpreender colegas mais jovens da companhia.

Depois de ficar uma semana na Europa com Gabrielli, Barbassa viajou para a costa oeste dos EUA e passou por cidades como São Francisco, Los Angeles, San Diego, Denver e Santa Fé, nem sempre visitadas em operações de ofertas de ações.

O perfil dos interlocutores era bem variado, embora todos pedissem bastante informação. "Tem investidor que já conhece a Petrobras e aí já começávamos com a sessão de perguntas", explica. Em outros casos, principalmente nos almoços, era feita uma apresentação prévia sobre a petroleira.

E o assunto principal, segundo Barbassa, era a cessão onerosa de 5 bilhões de barris para a empresa. "A operação, de US$ 42 bilhões, é provavelmente uma das maiores já feitas no mundo", justifica. Os investidores queriam entender as condições e os detalhes do contrato, inclusive por ter sido feito com parte relacionada - a União, controladora da companhia.

Uma das tarefas nesse caso - que pelo comportamento das ações parece não ter sido plenamente atingida - era convencer os investidores de que, para a companhia, os 5 bilhões de barris previstos no contrato assinado com o governo são como "petróleo no tanque" e, portanto, melhores até do que reservas de petróleo, já que não há risco de volume.

Outro tema de preocupação dos investidores foram as quatro refinarias que a Petrobras quer construir simultaneamente. Muitos questionam se o dinheiro previsto para esses projetos não seria mais bem empregado se fosse gasto em exploração e produção de petróleo, atividade mais rentável.

Barbassa conhece como poucos as críticas e argumenta que, diante de um crescimento anual de 4% do PIB, por exemplo, seria necessário aumentar as importações de derivados para abastecer o mercado interno sem as novas refinarias. Segundo ele, só no frete, a elevação de custo chega a US$ 8 por barril, somando gastos na exportação de petróleo bruto e importação de derivados. "Nossa capacidade de refino está no limite. A demanda adicional terá que ser atendida com importação e importar a um preço maior não deixa margem para a companhia", diz ele.

Barbassa destaca ainda que o processo da capitalização da Petrobras foi cheio de surpresas até para a direção da estatal. Segundo ele, ninguém esperava vender, dentro do Brasil, US$ 50,4 bilhões em ações da companhia. "Um grupo de investidores achou que era uma boa oportunidade de comprar e entrou pesado. Com isso, aquela alocação prioritária que era oferecida só para investidores na Bovespa foi inteiramente tomada. Ninguém imaginava que isso ia acontecer, vender dentro do Brasil US$ 50,4 bilhões", diz.

Naquele momento, o governo - que ao final do processo elevou de 39,8% para 49,3% sua participação na companhia - não tinha comprado tudo. E nenhum investidor ficou com tudo que pediu. "Houve um corte de 50% não só no varejo mas para o institucional também." Apesar de a operação ter atraído fundos soberanos do Oriente Médio, da Ásia e da Europa, além de outros investidores dessas regiões, os maiores compradores foram os investidores dos EUA.

E por que o governo colocou quase R$ 80 bilhões na operação, e não apenas os R$ 75 bilhões inicialmente previstos? "O endereço [dessa resposta] é a Esplanada dos Ministérios", desconversa.