Título: Empresa troca o Rio Grande do Sul pela Nicarágua
Autor: Watanabe, Marta
Fonte: Valor Econômico, 08/12/2010, Brasil, p. A3
Insatisfeita com as condições locais para competir contra os concorrentes asiáticos - sobretudo os chineses - no mercado internacional, a fabricante de calçados femininos Schmidt Irmãos, com sede em Campo Bom (RS), decidiu ir para a Nicarágua. A empresa vende 100% da produção para os Estados Unidos e a Europa e até o início de 2011 deve concluir a transferência das linhas fabris para a zona franca industrial de Zaratoga, na capital Manágua, onde começou a operar em setembro deste ano.
Fundada em 1943, a Schmidt Irmãos tinha 21 unidades industriais entre os municípios gaúchos de Campo Bom, Agudo, Barra do Ribeiro, Tapes, Arroio do Tigre, Sobradinho, Salto do Jacuí e Cachoeira do Sul, segundo informações ainda disponíveis em sua página na internet. A produção chegava a 4,5 milhões de pares por ano e o número de funcionários, a 3 mil, mas desde julho a empresa desativou as unidades em seis dessas oito cidades e reduziu o quadro de funcionários para cerca de 500 pessoas.
Por enquanto seguem em operação as unidades de Campo Bom, com aproximadamente 350 empregados, conforme informou o presidente do sindicato dos sapateiros da cidade, Vicente Selistre, e de Agudo, que tem pouco mais de cem funcionários, de acordo com a secretária de Indústria e Comércio do município, Simone Cardoso. Selistre calcula que as duas fábricas juntas produzem 3 mil pares por dia, o que daria perto de 800 mil pares por ano.
Conforme o secretário de Indústria e Comércio de Campo Bom, Marcos Riegel, porém, a produção local deve ser desativada até o início do próximo ano e a partir daí a empresa deverá manter apenas as equipes administrativas e de desenvolvimento de produtos na cidade. Em Agudo as informações também são de que a fábrica deve fechar em breve, informa a secretária municipal.
O Cafta, acordo de livre comércio firmado entre países da América Central e os Estados Unidos, foi decisivo para a decisão da Schmidt Irmãos, que opera em Manágua com o nome de SCA Footwear Nicarágua. Segundo o consultor da Associação Brasileira das Indústrias de Calçados (Abicalçados), Ênio Klein, a região também exporta sem impostos para a Europa, onde a empresa é dona da marca Globo. Só isso dá uma vantagem competitiva de 10% a 12% em relação ao Brasil, que enfrenta essas alíquotas nas vendas para os dois destinos, explica.
Na Nicarágua a empresa ainda fica livre dos impactos da valorização do real, consegue colocar os produtos nos mercados consumidores mais rapidamente e tem acesso a mão de obra farta e barata, acrescenta Klein. De acordo com ele, as despesas com pessoal equivalem a cerca de 50% dos custos de produção no segmento de calçados femininos, que exige uma grande quantidade de operações manuais. "A indústria de calçados é uma manufatura leve, de fácil relocalização, e acredito que outras empresas brasileiras podem seguir o mesmo modelo", comenta Klein.
Conforme as informações disponíveis na página da agência público-privada de promoção de investimentos ProNicaragua, a Schmidt Irmãos investiu US$ 10 milhões na implantação da fábrica local.
A operação começou com 700 funcionários, mas deve chegar a 1,4 mil até dezembro e a 1,8 mil no fim do ano que vem. Já a produção partiu de 1,5 mil pares por dia em quatro linhas e deve alcançar 10 mil em dez linhas até o fim de 2010.
Até agora a maior parte das unidades fechadas pela empresa no Rio Grande do Sul foi adquirida por outras indústrias do setor, como a West Coast, a Calçados Jacob (fabricante de produtos da marca Kildare) e a HG Indústria e Comércio, o que também garantiu o aproveitamento da maioria dos funcionários, lembra o presidente da Federação dos Trabalhadores nas Indústrias de Calçados do Estado, João Batista Xavier.
A exceção ficou por conta de Salto do Jacuí, onde a unidade foi fechada em julho, com a demissão de cerca de cem pessoas. Segundo o prefeito da cidade de menos de 12 mil habitantes, Ilton Costa, desde então o município vem fazendo contatos com outras empresas calçadistas e de outros setores para ocupar a fábrica desativada, mas até agora não obteve sucesso. O prédio pertence à prefeitura e estava cedido sem custos para a Schmidt Irmãos.
O Valor entrou em contato com a Schmidt Irmãos e tentou conversar com o diretor de recursos humanos, Luiz Carlos Silvestrin, responsável pelo atendimento à imprensa, mas não obteve retorno. O executivo também não respondeu ao e-mail encaminhado com perguntas sobre a transferência da empresa para a América Central.