Título: Fornecedor de cabos para TV fica fora do recorde do setor
Autor: Watanabe, Marta
Fonte: Valor Econômico, 08/12/2010, Brasil, p. A3

Instalada desde 1993 em Manaus, a indústria de condutores elétricos Gatsby do Brasil não vai comemorar este ano o que promete ser o faturamento recorde de US$ 33 bilhões do polo industrial da região. Cerca de 80% de seus clientes são fabricantes de televisores, um dos principais produtos que, em razão da Copa do Mundo de futebol e da demanda alta pelas telas de LCD, elevaram a receita das indústrias locais. Mesmo assim, a empresa projeta fechar 31 de dezembro com faturamento próximo de R$ 13 milhões, muito mais baixo que os R$ 23 milhões do ano passado ou do que os R$ 33 milhões de 2008.

Josué Indalécio, diretor da Gatsby em Manaus, diz que as importações explicam o descompasso entre a produção da empresa e as vendas internas de TVs. Segundo ele, a indústria percebeu, a partir do terceiro trimestre de 2009, que as encomendas não estavam acompanhando as expectativas de aumento de produção dos fabricantes de televisores para 2010.

Ele conta que a grande mudança se deu este ano, quando a produção das televisões de tubo passou a dar lugar às telas planas. Não se trata, porém, segundo Indalécio, de uma mudança tecnológica que tornou o produto da empresa desatualizado. Na verdade, diz, a mudança tecnológica aliada a um câmbio favorável às importações deu margem para um novo modelo de compra de componentes pela indústria de televisores.

"Para as TVs de tubo, as indústrias importavam componentes e compravam os cabos separadamente. Agora, para as novas televisões, os fabricantes importam kits de componentes que já incluem os cabos que fornecemos", explica. "É claro que para a indústria vale mais importar o cabo dentro desse conjunto."

Os dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior (Mdic) mostram a explosão nos desembarques de peças para televisores. De janeiro a setembro a importação de partes para aparelhos de recepção e televisores atingiu US$ 2,01 bilhões, mais que o triplo dos US$ 592,3 milhões comprados do exterior no mesmo período de 2009.

Segundo Indalécio, o novo modelo de compras das telas planas acabou sendo replicado pelos fornecedores estrangeiros para as tradicionais TVs de tubo. Isso prejudicou também a produção dos componentes para o mercado ainda remanescente desse aparelho.

Como resultado, a empresa, que tinha até setembro de 2009 em torno de 650 funcionários, hoje tem apenas 183. "Começamos a demitir em outubro e pouco a pouco reduzimos mais ainda o quadro de pessoal", diz. Com o atual número de trabalhadores, a empresa recua para o nível do quadro que mantinha desde 1998.

Indalécio diz que a redução é um baque para a empresa, que iniciou em 1993 com cerca de 40 trabalhadores e desde então vinha ampliando, pouco a pouco, a folha de salários. "Nós estamos sendo minados pelos importados. E nossos produtos têm melhor qualidade que os importados em tudo. Só perdemos no preço."

A Gatsby, segundo Indalécio, é a única produtora dos próprios cabos condutores elétricos que, numa etapa seguinte de manufatura, transformam-se em chicotes elétricos, rabichos, malhas e cabos de força. "Há os que importam os cabos condutores para depois transformá-los. Nós fabricamos o próprio condutor, fazemos a trefila de cobre e a montagem do cabo." Ele conta que a empresa sempre investiu na produção. "Fomos a 17ª empresa a ter a ISO 14000 e ganhamos várias vezes prêmios que fabricantes de televisores concedem para seus fornecedores."

Isso, porém, diz, não rendeu para a empresa a manutenção do volume de encomendas dos fabricantes de televisores. A sua produção, que chegava no ano passado a 1,2 milhão de cabos ao mês, hoje não passa de 400 mil a 500 mil mensais. "Nossa capacidade ocupada não chega a 35%. Antes tínhamos três turnos de trabalho. Hoje estamos em um turno."

Quando sentiu o efeito das importações nas encomendas, diz Indalécio, a empresa buscou diversificar sua carteira de clientes. "Estamos desenvolvendo novos tipos de cabos para máquinas automáticas de banco, por exemplo", diz. Mas a velocidade da perda de encomendas é muito maior do que os pedidos de novos nichos que estão sendo explorados. "Ainda estamos sendo homologados pelos fabricantes, mandando amostras e passando por auditorias e análises."

A desvalorização do dólar em relação ao real, diz Indalécio, tem afetado sensivelmente não só a Gatsby como também outros fabricantes de componentes. "Há cinco ou seis fábricas que prestavam serviços ligados a placas de circuito impresso que fecharam as portas", conta. Hoje essas placas também estão nos conjuntos importados das televisões de tela plana e alguns fabricantes de TV incorporaram esses serviços às suas linhas de produção.

Uma das expectativas de reação da Gatsby, diz Indalécio, está na produção de duas rodas. Os fabricantes de componentes do setor negociam atualmente junto com as montadoras e a Superintendência da Zona Franca de Manaus (Suframa) uma mudança no Processo Produtivo Básico (PPB) de motocicletas que torne obrigatória a compra de um determinado número de componentes de origem nacional.

"Nós nunca fornecemos cabos diretamente para a indústria de duas rodas", diz Indalécio. "E esse é um mercado grande, que pode comprar grandes volumes."

Hoje os fabricantes de motocicletas já são obrigados a seguir um PPB que teoricamente garantiria regionalização de produção. "Mas atualmente há casos em que a empresa agrega pouco mais de R$ 100 em componentes nacionais e legalmente já obedece ao PPB atual", diz Franklin de Mello Neto, que acompanha a discussão representando o Sindicato Nacional da Indústria de Componentes para Veículos Automotores (Sindipeças). A proposta de mudança leva em conta uma lista de peças diversas que equivalem a determinados pontos. O fabricante de moto deve cumprir um número mínimo de pontos conforme a potência da moto. Atualmente o PPB exige percentuais de agregação em processos de produção. A montadora de motos pode, por exemplo, fazer uma simples soldagem e cumprir o PPB.

O novo PPB deve ser alvo de discussão em reunião amanhã. Segundo Mello Neto, porém, o novo critério ainda precisa passar por consulta pública e a previsão inicial é de que seja exigido somente a partir de 2012. "Isso precisa entrar em vigor a