Título: Câmbio deve seguir fundamentos, afirma Tombini
Autor: Pinto, Lucinda; Campos, Eduardo
Fonte: Valor Econômico, 08/12/2010, Finanças, p. C3

O presidente indicado do Banco Central (BC), Alexandre Tombini, disse ontem que um dos grandes desafios do próximo governo será na área externa, particularmente em relação aos efeitos da enorme liquidez internacional sobre a taxa de câmbio. Durante sabatina na Comissão de Assuntos Econômicos (CAE) do Senado, ele deixou claro que "o câmbio é flutuante, mas flutuante em relação aos fundamentos econômicos do Brasil". Ou seja, ele considera "legítimas" as medidas macro-prudenciais para evitar a sobrevalorização do real frente ao dólar. Sua indicação foi aprovada por 22 votos a favor e 1 contra na comissão e deverá ser referendada, hoje, pelo plenário do Senado. Tombini chamou a atenção para o "quadro externo volátil" que requer atenção e para a recuperação das economias avançadas, que está sendo "mais lenta do que o previsto".

Para lidar com essa situação, Tombini afirmou que as medidas prudenciais tomadas até agora no Brasil, como o aumento da alíquota do IOF, entre outras, são uma forma de proteção, pois o mundo vive um "momento extraordinário" que requer atuação para evitar que "políticas de outros países determinem a direção" do câmbio no Brasil.

Segundo ele, o regime de câmbio flutuante tem cumprido bem o seu papel de absorver choques externos. Porém, em situações excepcionais como as de hoje, são mais do que justificáveis os usos de instrumentos macro-prudenciais.. "É importante, até para a própria segurança do sistema e da economia, colocar essas medidas prudenciais como fizemos recentemente. Isso certamente traz mais proximidade do câmbio flutuante com relação aos fundamentos da economia e não simplesmente deixa que políticas de outros países determinem a direção dessa importante variável econômica", enfatizou.

Ele ressaltou que não adianta o o país aproveitar da ampla e abundante liquidez que há hoje nos mercados financeiros internacionais e se beneficiar de um grande fluxo de capitais se, no futuro, esse quadro se reverter e gerar problemas de instabilidade financeira e problemas para as instituições bancárias e para as empresas.

O atual diretor de Normas do BC acredita que a situação "deve se normalizar ao longo dos próximos anos, mas no momento tem causado dificuldades aos países que têm flutuação de suas moedas não necessariamente respondendo aos fundamentos econômicos nem as forças de mercado ou ao comércio e o investimento."

Assim, disse ele, as medidas devem "resgatar o câmbio flutuante mais em linha com os fundamentos e o estágio de nosso resultado de conta corrente, que é de déficit". Como consequência, a ação do governo deve se refletir nas cotações no longo prazo.

As declarações, feitas na manhã de ontem, vieram após seis dias de queda do dólar. Horas depois, o BC voltou a atuar de maneira mais contundente no mercado de câmbio à vista, realizando duas atuações de compra de moeda americana pela primeira vez em quase um mês. Com isso, após atingir a mínima do dia, a R$ 1,67, o dólar comercial fechou estável a R$ 1,682 na venda.

Tombini entrou no BC em 1998, como consultor da diretoria colegiada, tendo passado, antes disso, por diversos cargos no ministério da Fazenda e também na Casa Civil, desde 1991. Ainda no BC, chefiou o Departamento de Estudos e Pesquisas e trabalhou no Fundo Monetária Internacional, entre 2001 e 2005, quando então voltou para a autoridade monetária, como diretor de Estudos Especiais. Em 2006, assumiu a diretoria de Normas e Organização do Sistema Financeiro, onde está até hoje.

Natural de Porto Alegre, com 47 anos, Tombini foi saudado pelos senadores como um bom nome para substituir Henrique Meirelles, há oito anos à frente do BC. Seu nome foi aprovado pela CAE por 22 votos a favor e 1 contrário e seguiu para aprovação do plenário, com votação prevista para hoje. A nomeação depende ainda de decreto do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

A exemplo do que já tinha feito no seu primeiro discurso como indicado, Tombini defendeu em diversos momentos de sua fala o tripé de política econômica, com câmbio flutuante, austeridade fiscal e, especialmente, o sistema de metas de inflação, do qual participou da elaboração, na gestão de Armínio Fraga à frente do BC, em 1999.

Reiterou que foi garantido a ele a "autonomia operacional plena" para atuação do BC pela presidente eleita, Dilma Rousseff, e que não existe o dilema de que é preciso ter inflação alta para se atingir crescimento econômico. "Precisamos construir as condições necessárias para no futuro convergir nossa meta de inflação para o padrão das economias emergentes". Ele agradeceu pela indicação de Dilma Rousseff e o "voto de confiança" do presidente Meirelles. Disse ainda que a "tarefa é pesada", mas que assumir o BC é o "ápice de uma aspiração pessoal".