Título: Maia deve buscar PMDB para garantir comando da Câmara
Autor: Junqueira, Caio
Fonte: Valor Econômico, 15/12/2010, Politica, p. A7

Marco Maia: gaúcho integra a mesma corrente de seu adversário Cândido Vaccarezza, a Construindo um Novo Brasil O metalúrgico indicado pelo PT para presidir a Câmara dos Deputados no primeiro biênio do governo Dilma Rousseff, Marco Maia (RS), terá pela frente outra difícil travessia até chegar ao posto que almeja: diminuir a crescente insatisfação da base governista com o espaço do PT na Esplanada e com a limitação aos empenhos e às liberações de recursos das emendas parlamentares.

Essa insatisfação tem feito crescer as chances de uma candidatura alternativa de peso, como a que vem sendo construída pelos partidos considerados de esquerda (PDT, PSB e PCdoB) junto com a oposição (PSDB, DEM e PPS). O nome em construção é o do deputado Aldo Rebelo (PCdoB-SP), embora outros sejam cogitados, como o de Márcio França (PSB-SP). Para vencer, contudo, seriam necessários os votos de partidos da direita, como PP, PR e PTB, cujos deputados têm reclamado e alertado para a possibilidade de uma candidatura não petista levar a presidência da Câmara.

Por essa razão, o caminho a ser costurado por Maia é via PMDB, que assinou com o PT um acordo de rodízio na presidência. Como os pemedebistas compuseram um bloco parlamentar com PR, PP, PTB e PSC, caberá à legenda do futuro vice-presidente Michel Temer segurar os deputados do grupo e impedir dissidências. Mas como nem o blocão nem a fidelidade de seus integrantes ao rodízio está no acordo assinado com os petistas, seus deputados, em tese, não têm a obrigação de seguir a orientação do líder do PMDB, Henrique Eduardo Alves (RN), de fechar com os petistas. Assim, a indicação de ontem não significa automaticamente a vitória na eleição para a Mesa, em fevereiro.

Entretanto, ela é carregada de sinalizações internas ao PT e aos atuais e futuros ocupantes do Palácio do Planalto. Primeiro, de que o grupo que comandou o partido e o governo nos últimos oito anos é suscetível a derrotas, ainda mais quando faltar diálogo e equilíbrio na condução dos processos internos de disputa. Maia, gaúcho, com intensa carreira sindical antes de entrar na política, integra a mesma corrente de seu adversário Cândido Vaccarezza (SP), a Construindo um Novo Brasil (CNB). Mas essas credenciais não o fizeram entrar no grupo petista que toma as decisões no Congresso e no Palácio do Planalto, sem consultar as bases.

Essa foi a diferença - e o triunfo - de sua candidatura. Ao agregar as insatisfações dos "de fora", derrotou Vaccarezza, o preferido do comando do PT e do Palácio do Planalto. Começou o dia ontem com 20 votos e terminou com mais de 50. A derrota, prevista pelos opositores, foi percebida e a candidatura de Vaccarezza, outrora tida como majoritária, foi retirada.

Não sem antes o outro candidato, Arlindo Chinaglia (SP), retirar sua candidatura também. Integrante do Movimento PT, a terceira maior corrente interna, o ex-presidente da Câmara percebeu que se levasse adiante sua pretensão, iria ao segundo turno, mas seria derrotado pela CNB. Se retirasse, ficaria mais fácil derrotar Vaccarezza, já que o outro candidato, Maia, também era da CNB.

Para a vitória de Maia foram cruciais dois movimentos. O primeiro foi a articulação dentro da CNB de Maurício Rands (PE) e Ricardo Berzoini (SP), contrariados com a perda de espaço dentro do governo. Rands queria ser ministro da Cultura e Berzoini manter a Previdência com o atual ministro, Carlos Gabas.

O segundo foi a adesão da Mensagem ao Partido, segunda maior corrente, à candidatura de Maia. Até segunda-feira, o acordo em costura era com Vaccarezza, mas integrantes da Democracia Socialista, de onde vieram a maior parte de seus integrantes, estavam irritados com a perda do Ministério do Desenvolvimento Agrário, que comandaram por oito anos. Perderam o ministério, mas levaram, com o acordo, a indicação do próximo líder da bancada, Paulo Teixeira (SP).