Título: Investimento perde fôlego, mas ainda deve ter alta forte
Autor: Lamucci, Sergio
Fonte: Valor Econômico, 03/01/2011, Brasil, p. A3

Depois de uma alta superior a 20% em 2010, o investimento deve avançar a um ritmo menos exuberante neste ano. Os mais otimistas apostam em expansão na casa de 10%, amparada nas perspectivas favoráveis para os setores ligados a commodities, ao mercado interno e à infraestrutura. Há fatores, porém, que podem levar a uma perda de fôlego mais forte em 2011, como as dificuldades enfrentadas pela parcela da indústria mais exposta à concorrência externa (em um quadro de câmbio valorizado) e o provável aumento dos juros.

Além disso, é possível que parte das empresas tenha antecipado inversões no ano passado, para aproveitar as condições favoráveis do Plano de Sustentação do Investimento (PSI) do BNDES, que deverá se encerrar em março deste ano. Já as medidas para estimular o financiamento de longo prazo, anunciadas em dezembro, são bem vistas pelos analistas, mas devem ter impacto em prazo mais longo.

O economista Fernando Sarti, da Unicamp, considera factível um crescimento em 2011 na casa de dois dígitos da formação bruta de capital fixo (FBCF, medida do que se investe na construção civil e em máquinas e equipamentos calculada dentro do Produto Interno Bruto). O investimento em infraestrutura, acredita ele, será bastante expressivo. "O PAC [Programa de Aceleração do Crescimento] deve ajudar nesse processo. As obras de saneamento tendem a andar mais rápido, assim como os investimentos em aeroportos, já que nos aproximamos de dois eventos esportivos importantes [a Copa de 2014 e a Olimpíada de 2016]."

De janeiro a outubro de 2010, as consultas ao BNDESpor empresas de infraestrutura subiram 60% em relação ao mesmo período de 2009, atingindo R$ 83,7 bilhões. É uma alta bem acima da média de todos os segmentos, de 21,3%. "Outro ponto é que a Petrobrase a Vale deverão investir pesado", diz Sarti.

O economista-chefe do J. P. Morgan, Fábio Akira, estima uma alta de 11% para a FBCF neste ano. "Há boas oportunidades em infraestrutura, existindo disposição para se financiar o investimento, tanto por parte do BNDES como do estrangeiro", acredita ele, que também aponta o panorama positivo para as empresas ligadas ao mercado interno. "O ritmo de expansão do investimento em 2011 deve cair pela metade em relação ao de 2010, mas ainda será um dos motores do crescimento, ao lado do consumo da famílias." Akira espera um avanço de 4,5% do PIB neste ano, abaixo dos 7,5% estimados para o ano passado.

O chefe da área de pesquisa econômica do BNDES, Fernando Puga, cita as boas perspectivas para os investimentos em infraestrutura, além de ressaltar a expectativa favorável para o setor de petróleo e gás. Segundo levantamento do banco, as inversões no segmento vão totalizar R$ 340 bilhões de 2010 a 2013, 112,9% a mais que nos quatro anos anteriores.

Uma dúvida é saber como vai reagir a indústria de manufaturados, que sofre com a concorrência dos produtos estrangeiros e enfrenta dificuldades para exportar, dada a fraca demanda global por esses bens. As consultas ao BNDES da indústria mecânica e da de material de transporte não indicam um quadro animador. De janeiro a outubro de 2010, as consultas da indústria mecânica recuaram 21,8% em relação a igual período de 2009, para R$ 5,6 bilhões. As de material de transporte, que inclui veículos, tiveram alta modesta, de 3,1%, para R$ 18,7 bilhões.

Para Akira, o câmbio valorizado tende a provocar uma menor alocação de recursos em setores exportadores, ou que sofrem com a competição dos importados. Quem está no ramo de commodities tem um cenário mais favorável para investir, diz ele. "Isso é algo esperado, mas a indústria de transformação opera em geral com alto nível de capacidade instalada e a confiança do setor segue elevada. Não está mais nas máximas históricas, mas tampouco nos patamares mais baixos", pondera.

Puga acha possível que, no caso da indústria mecânica, tenha havido antecipação do investimento, com as empresas aproveitando as taxas bastante atraentes do PSI. De janeiro a 8 de dezembro, os desembolsos do PSI totalizaram R$ 80,5 bilhões. Para Akira, de fato existe a possibilidade de que o PSI tenha levado uma parte das empresas a antecipar as inversões, já que o custo é muito atraente. O presidente do BNDES, Luciano Coutinho, anunciou que o programa terminará em março.

Sarti acredita que a indústria deve elevar investimentos em 2011, mesmo sofrendo com a concorrência externa facilitada pelo dólar barato. "Inversões em infraestrutura e consumo estimularão os investimentos industriais, que considero estratégicos nesse momento, dado o elevado grau de utilização da capacidade e o aumento exponencial das importações ", diz ele.

"Ou se investe agora, ou se perderá mercado para concorrentes e importados, inclusive de filiais da própria corporação", afirma Sarti. "Não acredito que ninguém adotará estratégia tão passiva diante de expectativas tão positivas para a economia brasileira e do reduzido número de outras opções." Segundo ele , se esses investimentos não se materializarem, ficará claro que o problema de competitividade da indústria é, de fato, grave.

Um segmento que mostra um desempenho mais preocupante é o de metalurgia, onde estão as empresas de siderurgia. As consultas caíram 64% de janeiro a outubro de 2010, para R$ 4,6 bilhões. "Esse é um setor que temos olhado com mais atenção", diz Puga, para quem o excesso de oferta de aço no mundo tende a afetar os planos de investimento das empresas exportadoras. Ele observa, porém, que o segmento investiu muito nos últimos anos, elevando a capacidade produtiva. Mesmo com alguns problemas localizados, Puga se diz otimista quanto às perspectivas da FBCF em 2011, acreditando numa alta a um ritmo de 10%.

A economista Mônica Baumgarten de Bolle, da GalantoConsultoria, tem visão mais cautelosa. Para ela, se o governo reduzir os estímulos fiscais, monetários e de crédito em 2011, para trazer a inflação para nível mais compatível com o centro da meta perseguida pelo Banco Central, de 4,5%, a FBCF não crescerá na casa de dois dígitos.

"Em algum momento, que espero seja mais cedo do que tarde, os juros vão subir em 2011, e isso terá algum impacto sobre o investimento", afirma ela, para quem também é importante que os bancos públicos sejam menos atuantes, de modo a estimular menos a demanda e abrir espaço para o desenvolvimento do mercado de crédito privado de longo prazo, como as medidas anunciadas pelo governo recentemente.

Se essas decisões forem tomadas e houver desaceleração da alta das despesas públicas, o investimento tende a crescer menos do que muitos analistas esperam, acredita Mônica, que espera crescimento do PIB de 3,5% a 4% em 2011.

Já as medidas para estimular o financiamento de longo prazo, como os benefícios tributários para debêntures voltadas a projetos de infraestrutura, são positivas para o investimento, mas não devem ter grande efeito em 2011, acreditam analistas. Para Akira, elas são importantes, mas tendem a produzir impacto mais significativo num prazo mais dilatado. Não é de uma hora para outra que vão impulsionar as inversões.

"As medidas só terão efeito no médio e longo prazos", concorda Sarti. "O impacto não será percebido em 2011, mas elas serão fundamentais para a geração de mais funding para os investimentos e, sobretudo, para reestruturar a dívida pública e facilitar a redução dos juros."