Título: Crise em torno de nomeações deve aumentar
Autor: Ulhôa, Raquel
Fonte: Valor Econômico, 10/01/2011, Política, p. A7
A presidente Dilma Rousseff mantém a determinação de nomear técnicos para o comando das estatais do setor elétrico, especialmente Furnase Eletrobrás, e da Fundação Nacional da Saúde (Funasa), tirando esses órgãos do controle do PMDB, mesmo reconhecendo que o partido do vice-presidente Michel Temer tem motivos para reclamar da forma como o PT avançou sobre seu espaço no segundo escalão. O PMDB tem chance de manter apenas uma das estatais do setor elétrico, a Eletronorte, e assim mesmo terá de enfrentar disputa com o PT da região Norte, que reivindica o cargo para Adhemar Palocci - irmão do ministro Antonio Palocci (Casa Civil) -, hoje diretor da empresa.
O governo já prevê aumento da crise e tentar administrar a relação com o PMDB negociando a ocupação de outros cargos. Os coordenadores políticos do governo, ministros Luiz Sérgio (Relações Institucionais), e Antonio Palocci, com aval da presidente, assumiram com lideranças do PMDB o compromisso de deixar para o partido as indicações dos diretores da Funasa, desde que escolhidos entre servidores de carreira do órgão e com perfil técnico.
Também faz parte do acordo repartir entre os aliados a ocupação das superintendências estaduais da Funasa, a partir de avaliação de cada caso. O PMDB poderá manter controle sobre braços da fundação nos Estados, mas perderá a presidência da instituição.
Dilma, que foi ministra de Minas e Energia e conhece bem o setor, não abre mão de trocar a direção da Eletrobrás e de Furnas. O engenheiro José Antonio Muniz, apadrinhado do senador José Sarney (PMDB-AP), não será mantido na Eletrobrás, mas ainda não há decisão sobre o substituto.
O mais cotado é Flávio Decat, ex-diretor da empresa e vice- presidente do grupo Rede Energia. Também estava no páreo Valter Cardeal, diretor da Eletrobrás, que acabou desgastado por notícias de suposto conflito de interesses envolvendo seu irmão, engenheiro Edgar Luiz Cardeal, que trabalha em projetos de energia elétrica.
O governo ainda não tem o nome para comandar Furnas, historicamente sob o controle da bancada do PMDB do Rio de Janeiro. Mas está descartada a nomeação de qualquer um dos indicados do partido: o ex-senador Hélio Costa (MG) ou o deputado Marcos Lima (MG), não reeleito, escolhido da bancada mineira.
A pedido do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o diretor-geral da Itaipu, Jorge Samek, será mantido no cargo.
O petista Eurides Mescolotto não vai continuar na presidência da Eletrosul. O cargo está sendo disputado entre PT e PDT. O PT de Santa Catarina que está indicando o deputado Claudio Vignatti, que não se reelegeu. O PDT tem dois nomes: o do deputado Dagoberto Nogueira, que perdeu a eleição para o Senado por Mato Grosso do Sul, e o do vice-presidente do PDT, Manoel Dias, o Maneca.
Na presidência da Funasa, o ministro Alexandre Padilha (Saúde) está decidido a colocar o empreiteiro Gilson de Carvalho Queiroz, que presidiu o Conselho Regional de Engenharia, Arquitetura e Agronomia (Crea) de Minas Gerais, no lugar de Faustino Lins, indicado pelo líder do PMDB na Câmara, Henrique Eduardo Alves (RN). A indicação de Queiroz depende ainda dos desdobramentos da fiscalização de uma empresa sua pelo Tribunal de Contas da União (TCU). Só depois é que serão discutidas as nomeações nas superintendências estaduais.
Em conversas com ministros políticos e dirigentes petistas, a presidente avaliou ter faltado habilidade, especialmente a Padilha, na relação com o PMDB. Ao ganhar o ministério antes comandado pelo aliado, tirou da Secretaria de Atenção à Saúde (SAS) Alberto Beltrame e nomeou Helvécio Martins, ex-secretário de Saúde de Belo Horizonte, por indicação do PT mineiro. A substituição foi considerada natural, mas o problema foi a falta de conversa com o PMDB.
O caso da Empresa de Correiose Telégrafos (ECT), por exemplo, é tido como completamente diferente até pelos próprios pemedebistas. O ministro das Comunicações, Paulo Bernardo, trocou toda a diretoria, indicada por pemedebistas, por técnicos. Mas Dilma avisou ao PMDB que iria "limpar" a empresa e o partido concordou, já que apadrinhados seus nos cargos envolveram-se em vários escândalos.
Mesmo assim, na opinião da própria Dilma, a sinalização dada pelo PT nesse início de formação do segundo escalão é a de que "passaria o rodo" no parceiro do governo: negociou a permanência de petistas em cargos-chaves de ministérios dados ao PMDB, como os do Turismo e da Previdência, ao mesmo tempo em que tirou pemedebistas das Pastas que conquistou.
Os exemplos dos ministros Pedro Novais (Turismo), que manteve na presidência da Embraturo petista Mário Augusto Lopes Moysés, e Garibaldi Alves (Previdência), que designou secretário-executivo Carlos Gabas, petista que estava no comando do ministério, foram usados por Henrique Alves, porta-voz da ala mais insatisfeita do partido, para cobrar reciprocidade.
A reciprocidade, no entanto, não virá. Segundo um interlocutor de Dilma, a presidente teria encarado essa primeira rebelião como um "ruído" natural numa base tão ampla e heterogênea e sua orientação ao PT teria sido para conversar mais. "Quando o caminhão anda, as abóboras se acomodam. É a lei da física", diz um dirigente do partido.