Título: EUA e China buscam um espaço de convergência
Autor:
Fonte: Valor Econômico, 20/01/2011, Opinião, p. A10
Pelos resultados, dificilmente a visita do presidente chinês Hu Jintao aos Estados Unidos poderá ser classificada de histórica. Há desavenças demais entre os dois países, que mudaram radicalmente de status desde que, em 21 de fevereiro de 1972, Richard Nixon pôs o pé em território chinês para se encontrar com Mao Tsetung - foi o primeiro presidente americano a fazer isso. O vácuo deixado pelo esfacelamento da União Soviética em 1989 e a ruína do império stalinista no Leste Europeu deixou a impressão de que os EUA eram finalmente a potência hegemônica, mas por pouco tempo. A China tornou-se uma força mundial com pleno direito dez anos depois de Nixon estar por lá, com a subida ao poder de Deng Xiaoping e suas reformas, que alicerçaram a formidável máquina econômica que agora assombra o mundo.
Os EUA ainda são a maior economia mundial e ainda têm a força - é a maior potência bélica -, mas é hoje óbvio que seu domínio inquestionável chegou ao fim. A rival China passou a desafiá-lo em todas as frentes, inclusive a militar, já sua ascensão segue a lógica inevitável de que o poderio econômico traz consigo necessidades (defensivas ou ofensivas) de domínio geopolítico. A maior crise financeira desde 1929 pode ter marcado o declínio econômico dos EUA, embora essa tese tenha se tornado um modismo duvidoso, não referendado pelos fatos. O novo imperialismo chinês, por seu lado, conquista poder político em todos os continentes a expensas das enormes reservas acumuladas ao longo de um período de crescimento exuberante. A China emprestou aos países em desenvolvimento US$ 110 bilhões em 2009 e 2010, mais dinheiro do que o financiado pelo Banco Mundial, e tem comprado simpatias na África e na América Latina com promessas comerciais ou com o financiamento para obras vitais de infraestrutura básica.
O grande salto para fora do dinheiro chinês foi movido pela busca de recursos naturais que se tornarão escassos (e boa parte das guerras no passado tiveram essa motivação) e de mercados para seus produtos. A dimensão financeira do incipiente imperialismo chinês é um companheiro de viagem da política externa do país. A China está adquirindo títulos dos países endividados da zona do euro não apenas para se livrar da dependência do dólar, mas, entre outras coisas, para pôr um anteparo às críticas sobre suas discutíveis práticas comerciais. Hoje, a China detém, com os EUA, o poder de reequilibrar a economia mundial, se estiver disposta a valorizar sua moeda e estimular seu gigantesco mercado doméstico. Não há, porém, a menor chance de os dirigentes fazerem isso a curto prazo, muito menos sob pressão externa.
As divergências entre EUA e China são consequências não só do avanço chinês, mas da forma como ele é feito. A China não respeita direitos de propriedade e copia tecnologias das empresas estrangeiras que produzem em seu território, quer elas queiram ou não. É uma economia fechada, com enormes barreiras a companhias estrangeiras. Seu sistema de preços é uma selva inextricável de subsídios, nutrida por salários muito baixos. As contas nacionais não são confiáveis. A alocação de recursos fica a cargo de uma ditadura que não hesita em eliminar adversários verdadeiros ou supostos. Não há liberdade alguma.
Os EUA, por seu lado, têm interesses vitais na China, embora sofram as consequências do yuan desvalorizado. Vem das empresas americanas boa parte dos US$ 5 trilhões que elas obtiveram fora dos EUA (2008), três vezes mais que as exportações americanas. Além disso, a política multilateralista do presidente Barack Obama, que a direita republicana identifica como sinal de fraqueza, aceita e leva em conta um mundo multipolar onde a China desponta com alarido. Um esboço de acordo político pode estar mais à mão de Obama e Hu Jintao do que o econômico.
Como potência ascendente, a China tem responsabilidades de respeitar as regras do comércio internacional e se empenhar para manter a paz, algo especialmente importante nas questões relativas à Coreia do Norte, Irã e Tibete. Não é difícil que os EUA adaptem aos novos tempos algumas das linhas gerais do comunicado de Xangai, emitido ao final da visita de Nixon: é do interesse de todos a normalização das relações bilaterais, a redução dos riscos de conflitos internacionais e a recusa à busca de hegemonia na região Ásia-Pacífico. Não é algo formidável, mas pode ser algo que assegure que as duas maiores potências econômicas do planeta continuem conversando, ainda que divergindo.