Título: Cai compra de dólares após as medidas cambiais
Autor: Travaglini, Fernando; Safatle, Claudia
Fonte: Valor Econômico, 20/01/2011, Finanças, p. C2
O Banco Central mudou sua estratégia de compra de dólares junto ao mercado à vista no começo deste ano. Nas duas primeiras semanas de janeiro, o BC adquiriu, até o dia 14, US$ 2,291 bilhões. O volume é menos da metade de todo o fluxo de divisas (US$ 5,185 bilhões) que entrou no país no mesmo período
O padrão de intervenção do BC no mercado de câmbio mostra uma clara diferença em relação à postura adotada no ano passado. Ao longo de 2010, a autoridade monetária comprou US$ 41 bilhões nos leilões de dólares do mercado à vista. O volume foi bastante superior ao fluxo de moeda estrangeira que de fato entrou no país, de US$ 26 bilhões.
A nova estratégia do BC foi adotada logo após a definição de medidas para conter a valorização excessiva do real frente ao dólar. Logo nos primeiros dias da nova gestão de Alexandre Tombini à frente do BC, a instituição criou o recolhimento compulsório sobre as posições vendidas das instituições financeiras e, na sequência, retomou os leilões de contratos de swap cambial reverso.
Na opinião de alguns profissionais, ao adquirir moeda estrangeira acima do volume de dólares realmente disponível no mercado, o BC acabava estimulando a ampliação das posições vendidas por parte dos bancos e, assim, gerava uma pressão adicional de valorização do câmbio. Isso porque os bancos brasileiros intensificavam a tomada de recursos no exterior a taxas mais baixas, trazendo as divisas para o país com o objetivo de vendê-las ao BC.
Essa atuação mais branda somada às medidas adotadas pelo BC - entre elas a definição do recolhimento de depósitos compulsórios - a posição vendida dos bancos no mercado à vista deve ter sido reduzida em cerca de US$ 3 bilhões nos primeiros quinze dias do ano, caindo de US$ 17 bilhões para US$ 14 bilhões. Além disso, as reservas internacionais tiveram pouca oscilação no ano, atingindo US$ 290,761 bilhões no dia 14. Vale lembrar que o BC já deixou claro que não quer continuar "engordando" as reservas como ocorreu em 2010.
Segundo Eduardo Velho, economista-chefe da Prosper Corretora, o viés da taxa de câmbio brasileira continua sendo de queda. "A economia continua com crescimento médio real elevado, o que continua facilitando o ingresso de recursos externos", afirma o analista.
Outro fator de pressão deve ser o aumento da taxa básica de juros (Selic), que pode estimular ainda mais a entrada de recursos. Dentro dessa perspectiva, Velho acredita em novas medidas do governo no mercado cambial, em particular com o swap cambial reverso, ou mesmo ajuste nas medidas já adotadas de compulsório e IOF para evitar uma valorização acentuada do real. "O governo em 2011 deverá reduzir, ou pelo menos tentar desacelerar o "custo fiscal" do uso do mecanismo de compra de divisas no mercado pronto comparativamente ao de 2010", avalia.
Ontem, o comportamento do mercado global prevaleceu e a moeda americana caiu frente ao real pelo terceiro dia consecutivo. A moeda americana fechou valendo R$ 1,671, em baixa de 0,29%.
O fluxo cambial nas duas primeiras semanas do ano, até o dia 14, foi positivo em US$ 5,185 bilhões. Mas o saldo nos últimos dias registrou uma desaceleração em relação à forte entrada de divisas que ocorreu entre os dias 6 a 10, na sequência da criação do recolhimento compulsório. Esse recuo, avalia Eduardo Velho, não deve ser visto com tendência, já que o movimento deve continuar positivo. "Não podemos considerar esse movimento como tendência e sim como pontual, pois já temos notícias de captações em estágios avançados de fechamento." O saldo de entrada de moeda estrangeira pelo segmento financeiro soma US$ 3,968 bilhões até o dia 14. Na conta comercial, o saldo acumula US$ 1,217 bilhão, também positivo.