Título: É preciso comedimento no novo ciclo de alta dos juros
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Fonte: Valor Econômico, 21/01/2011, Opinião, p. A10
O Comitê de Política Monetária do Banco Central elevou a taxa básica de juros para 11,25%, em um movimento amplamente aguardado pelo mercado. O BC sinalizou que se trata apenas do início de um ciclo de ajuste, cuja duração e intensidade não se sabe. Há bons motivos para supor que a Selic não subirá muito porque o aumento dos juros está sendo coadjuvado desta vez por medidas de prevenção cujos efeitos são limitar o crédito e encarecê-lo. A julgar pelo sempre conciso comunicado do Copom, elas integrarão o arsenal do BC no processo de levar a inflação dos 5,91% de volta para o centro da meta de inflação, 4,5%.
Há vários fatores pressionando a inflação. As commodities são o elemento mais estridente, em especial as agrícolas, atingidas por uma série de problemas climáticos em várias partes do globo. O Índice Commodities Brasil, do BC, aponta alta de 29,2% em 12 meses encerrados em novembro, e de 35,7% para bens agropecuários. O S&P GSCI agrícola aponta elevação menor, mas significativa, de 22,1%. Não há muito a fazer diante desse choque de oferta que, no entanto, ocorre em um momento em que a demanda brasileira está claramente aquecida. O BC estimou os efeitos dos choques nas commodities sobre o IPCA e chegou à conclusão que eles atingem seu pico no mês seguinte aos aumentos e, por outro lado, tornam-se nulos após o quinto mês. Por essa medida, é possível que no segundo semestre a inflação dos alimentos esteja mais tranquila, caso não ocorram novos choques nos preços.
O que levou o BC a reagir foi que mesmo sem a pressão das commodities a inflação também escapa do centro da meta. Em novembro, sem alimentos e bebidas, o IPCA em 12 meses foi de 4,6%. E os preços livres, no mesmo parâmetro, subiram 5,33%. Os núcleos do IPCA se situaram todos acima dos 5%, seja qual for a forma de exclusão dos itens voláteis. O índice de difusão, que mostra a proporção de produtos com aumento de preços, cresce de qualquer forma, mesmo retirando o grupo alimentos do cálculo.
Há um problema de aceleração inflacionária, mas qual é sua magnitude? Tanto nos cenários do BC quanto nos do mercado, a economia brasileira, depois de correr acima dos 7% em 2010, algo que não se via há duas décadas e meia, reduzirá seu ritmo para 4,5%. Na projeção do BC, a expansão da indústria de transformação cai pela metade em 2011 (de 10,2% para 5,4%), o setor de serviços cresce 4,2%, ante os 5,4% de 2010 e a agropecuária avança apenas 0,5% ante 7,5% no ano passado. O descompasso entre oferta e demanda, apontado pelo BC, possivelmente deixará de existir. O BC projeta um recuo de 2 pontos percentuais no consumo das famílias, para 4,8%, e 1,5 ponto percentual no consumo do governo, para 2,4%.
O BC poderia, por outro lado, não perseguir o centro da meta nem elevar os juros agora e, nesse caso, pelas projeções da própria autoridade monetária, nada de muito grave ocorreria. Com o juro mantido a 10,75% e o dólar a R$ 1,70, a evolução dos preços ficaria "acima do valor central da meta até o fim de 2011, quando alcança 5,0%, e oscila em torno da meta nos trimestres posteriores, encerrando o último trimestre de 2012 em 4,8%". Não existe a possibilidade, porém, de o BC se isentar de perseguir o centro da meta, no sistema brasileiro, da mesma forma que ele tem de obter seus resultados dentro do calendário gregoriano e não em prazos mais longos. Em suma, as chances de o teto da meta ser ultrapassado ou criar-se um ambiente de descontrole inflacionário é, até agora, remoto. Com isso, o tamanho do ajuste nos juros não necessitará ser grande.
O que turva de alguma forma o cenário é a intervenção do governo para impedir uma valorização adicional do real em relação ao dólar. Há benefícios e desvantagens em fazê-lo. Pelo lado real da economia, com o consumo doméstico acelerado e o aumento do déficit em conta corrente, o real deveria se desvalorizar. Entretanto, as boas perspectivas do Brasil e seus juros exóticos - não há hoje um país relevante com taxa real remotamente parecida - atraem grande quantidade de capital externo. Deixado à própria sorte, o câmbio se valorizará bem mais, agora com o estímulo adicional de um aperto na política monetária. Ações para desvalorizar o real, por outro lado, não ajudam, para dizer o mínimo, na luta contra a inflação. O cenário para a inflação e a armadilha do câmbio exigem que o Banco Central seja o mais comedido possível no aumento dos juros.