Título: Nos recados, Irã, diplomacia e Europa
Autor:
Fonte: Valor Econômico, 27/01/2011, Brasil, p. A4

Os contornos da política externa do Brasil "não mudam radicalmente" no governo de Dilma Rousseff, disse ontem o ministro das Relações Exteriores, Antonio Patriota, a líderes da União Europeia (UE), principal parceiro comercial do país e parceiro estratégico. Ele afirmou que a prioridade continuará a ser a construção de uma zona sul-americana de cooperação, mas sem negligenciar novos parceiros no Oriente Médio, Ásia e África, e os desenvolvidos.

Sobre o Irã, disse que o Brasil desempenhará um "papel construtivo correspondente às suas capacidades de diálogo", uma declaração interpretada como de mais cautela em relação ao protagonismo do governo Luiz Inácio Lula da Silva.

Antonio Patriota recebeu tratamento vip em Bruxelas. Teve rodada de trabalho com o presidente da UE, Herman Van Rumpuy, jantar com o presidente da Comissão Europeia, José Durão Barroso, e longo encontro com a chefe da diplomacia europeia, Catherine Ashton, com os europeus indicando a importância da relação bilateral.

Entre os europeus, havia uma questão persistente diante do foco da diplomacia brasileira durante o governo Lula na Ásia e na África: "a Europa já era?", indagavam algumas autoridades e acadêmicos em conversas informais. Ainda mais que a presidente Dilma Rousseff terá encontro com os EUA e vai à China no começo de seu governo, mas só aparecerá em Bruxelas em outubro para o encontro da parceria estratégica. Patriota tratou de mostrar que, escolhendo Bruxelas para entrar na Europa em sua primeira visita como ministro, "testemunha o interesse que damos a continuar a parceria estratégica, à negociação Mercosul-UE e a aprofundar o diálogo político".

"Os contornos da política externa do Brasil não mudam radicalmente, pois o governo de Dilma Rousseff é um governo que se sustenta sob uma base eleitoral que aprovou o que foi feito nos últimos oito anos", afirmou. Catherine Ashton, por sua vez, declarou que a UE quer reforçar a cooperação sobre questões globais, "incluindo direitos humanos".

Sobre a relação com o Irã, Patriota explicou aos europeus que o engajamento do Brasil em 2010 na mediação de um acordo na área nuclear se explicou "pela busca de alternativas diplomáticas e construção da confiança por uma situação que é entre as mais complexas na agenda do Conselho de Segurança da ONU".

O ministro "encorajou" a chefe da diplomacia europeia a prosseguir o esforço diplomático para um acordo com o Irã sobre a questão nuclear. Na verdade, a França e a Alemanha têm posição dura, e a própria Ashton estima que diplomacia não significa protelar uma solução. Os iranianos exigem como pré-condição que a Europa e os EUA suspendam as sanções comerciais, que estariam fazendo realmente efeito, para depois retomar um verdadeiro diálogo.

Patriota disse que não foi levantada com autoridades europeias a questão de Cesare Battisti. (AM)