Título: Estamos pouco representados, diz Ricardo Marino, do Itaú
Autor: Leo, Sergio
Fonte: Valor Econômico, 27/01/2011, Especial, p. A14
Mal acabava o seminário sobre América Latina no Fórum Econômico Mundial, em Davos, quando o principal executivo do Banco Itaú para a região, Ricardo Villela Marino, foi abordado por um grupo encabeçado pelo presidente do Panamá, Ricardo Martinelli.
"Quando vocês vão levar o Itaú para o Panamá? Já temos várias empresas brasileiras lá", reivindicou o presidente panamenho.
"Estamos avaliando as oportunidades", respondeu Ricardo Marino, educadamente. A cena resume uma convicção entre participantes do fórum: a América Latina, antes tratada como uma vítima das crises, é hoje um dos mais vibrantes ambientes para negócios.
"A América Latina está no radar, só temos aqui poucos representantes para contar essa história de mudança global, estamos muito fechados no mercado doméstico", lamentou Marino, que apresentou, em Davos. "A China está aqui com 150 delegados; a Índia, com 120."
Durante o debate, o executivo apresentou os bons números da economia brasileira, mas lembrou os problemas que ainda dificultam investimentos, como a falta de infraestrutura, a baixa qualidade do gasto público e a alta e complexa tributação.
Em outra demonstração do espírito favorável otimista reinante no fórum em relação à região, recebeu um aparte de Moisés Naim, editor da revista "Foreign Policy" e executivo do Fundo Carnegie para a Paz Internacional.
"É um fato: em todo lugar o crescimento leva a aumento da igualdade, e o Brasil conseguiu um milagre, crescer reduzindo a desigualdade", elogiou Naim, citando indicadores de distribuição de renda.
Segundo um dos palestrantes no seminário, algumas avaliações de risco do Brasil, Chile e México colocam esses países acima de europeus, como França, Portugal ou Espanha.
"Essa será a década da América Latina, com a Copa do Mundo e as Olimpíadas no Brasil", insistiu, em um dos painéis principais do fórum, Martin Sorrell, principal executivo da WPP, gigante de publicidade britânico, que, no Brasil, controla a Ogilvy, entre outras empresas.
Grande parte do debate sobre a América Latina foi tomada por críticas de participantes, muitos deles venezuelanos, às ameaças do governo da Venezuela contra empresas privadas.
O interesse dos investidores, porém, vai além dos países considerados de bom comportamento pelo setor privado, como revelou ao Valor Naveen Jindal, vice-presidente executivo da mineradora indiana Jindal.
A empresa investiu pouco mais de US$ 100 milhões na Bolívia - onde chegou a ter conflitos "já resolvidos" com o governo local - e pretende chegar a US$ 1,7 bilhão em investimentos até 2014. No Brasil, as dificuldades de infraestrutura desencorajam os investimentos indianos no setor, diz.
Mas mesmo o famoso pessimista Nouriel Roubini, que levou ao fórum suas preocupações com sinais de fragilidade na recuperação da economia europeia, tem palavras otimistas para o Brasil.
"As coisas estão boas no Brasil, o quadro macroeconômico é positivo", disse, ao Valor. "O principal desafio é reduzir o déficit fiscal para garantir que a inflação não escape do controle e o real se torne forte demais, afetando a competitividade do país", disse. E complementou: "Mas há uma boa política monetária e estabilidade fiscal".
Entre as vozes discordantes, está a do ex-diretor do FMI Ricardo Hausmann, da Universidade Harvard. "O Brasil não está correspondendo a seu peso, poderia ter presença muito maior", criticou. (SL)