Título: Argentina retoma vigor de indústria automobilística
Autor: Rittner, Daniel
Fonte: Valor Econômico, 01/02/2011, Especial, p. A16

Com um recorde de vendas no mercado doméstico e servindo como plataforma de abastecimento para o Brasil, que suga mais da metade de todos os automóveis fabricados no país, a Argentina voltou ao radar das montadoras. As nove empresas com instalações locais fizeram anúncios de investimentos pesados, principalmente nos últimos seis meses, o que deverá possibilitar a produção de 1 milhão de veículos por ano antes de 2015. O renascimento da indústria automotiva argentina é nítido. No auge da década de 90, sua fatia na produção mundial de veículos alcançou 0,6%. Caiu abruptamente com o colapso do mercado interno e a crise da região, em 2002, quando essa participação encolheu para 0,27% e foram fabricadas apenas 159 mil unidades. No ano passado, foram 724 mil carros e caminhões, o equivalente a praticamente 1% do total mundial. Para este ano, a estimativa oficial é que saiam das montadoras até 840 mil.

A perspectiva de crescimento da indústria, que prevê investir cerca de US$ 1 bilhão no período 2010-2012, está fortemente atrelada à demanda do Brasil. O acordo automotivo entre os dois países, hoje bem mais flexível do que era há dez anos, tem permitido o comércio bilateral de veículos sem a pesada tarifa de importação de 35%. A Argentina exporta veículos para 57 países, mas são apenas 11 aqueles que absorvem mais de mil unidades por ano. E o mercado brasileiro isoladamente, considerado um "aspirador de carros argentinos", compra nada menos que 53% da produção do vizinho.

"A Argentina e o Brasil consolidaram um mercado de quase 5 milhões de veículos (novos por ano) e essa demanda é a que devemos valorizar em toda a sua dimensão", disse recentemente a ministra da Indústria, Débora Giorgi, após reunir-se com empresários do setor. O mercado interno, que absorve 37% da produção, superou o recorde anterior de 2008 e fechou o ano passado com 662,5 mil vendas.

Os anúncios de aumento da capacidade instalada, embora não envolvam novas fábricas, têm sido cada vez mais constantes. Neste mês, executivos da Toyota comunicaram à presidente Cristina Kirchner que vão desembolsar US$ 126 milhões, nos próximos dois anos, para elevar a produção em 41%. Em dezembro, a Mercedes-Benz anunciou um investimento de US$ 75 milhões para retomar a montagem de caminhões no país - com o semipesado Frontal 1720 -, depois de 15 anos.

Os fabricantes de veículos de passeio também desengavetaram planos ambiciosos. A Fiat está aplicando 813 milhões de pesos (cerca de US$ 200 milhões) para fabricar, em Córdoba, um novo carro de "classe mundial" e design "completamente novo". Na mesma localidade, onde está a primeira fábrica da Renault fora da França, serão produzidas até 35 mil unidades por ano do modelo Fluence - 20 mil das quais atenderão o Brasil e 5 mil os mercados da Colômbia, Uruguai e Paraguai.

Uma das exceções, em matéria de novas fábricas, é a planta recém-inaugurada da Honda nas proximidades de Buenos Aires. Em um terreno de 142 hectares, que está recebendo investimentos de US$ 250 milhões, a montadora japonesa passará a fabricar toda a linha do sedã Honda City. Antes, o automóvel era fabricado em Sumaré, no interior de São Paulo. Agora, o mercado brasileiro será atendido a partir da Argentina. Cerca de 60% da produção total estará destinada à exportação e outros 40% ficarão no mercado local.

Com a consolidação da sua indústria automotiva, especialistas consideram que o grande desafio que a Argentina tem pela frente é reduzir o déficit comercial na balança de autopeças, que já supera os US$ 6 bilhões.

De acordo com a Adefa, associação que congrega as montadoras instaladas na Argentina, a baixa integração local de partes e peças se deve a três motivos diferentes: há casos em que a tecnologia não está disponível no país, há outros em que a capacidade dos fabricantes locais já opera no limite e é preciso complementar a produção com importados, e existem ainda situações - como no caso do aço - em que comprar de fornecedores argentinos pode sair mais caro do que adquirir de fornecedores estrangeiros. Fundição, mecânica, eletrônica e pneus são alguns dos segmentos deficitários apontados pela associação.

O presidente da Fiat na Argentina, Cristiano Ratazzi, elogia os esforços do governo para agregar mais conteúdo nacional ao setor. Ele acredita que a tendência é aumentar a incorporação de peças fabricadas no país, mas pondera que esse é um processo lento. "Quando há economia de escala - tanto pelo crescimento da produção quanto pelo mercado de reposição -, abrimos a possibilidade de que também os fabricantes de autopeças façam seus investimentos", disse o executivo ao Valor.

O governo adotou duas estratégias antagônicas. Em um país com baixíssimo financiamento privado de longo prazo e sem um banco de fomento estatal, nos moldes do BNDES, habilitou uma linha de crédito para oferecer empréstimos de cinco anos e com taxa fixa de 9,9% ao ano (muito abaixo da inflação). A linha foi pomposamente chamada de Fundo do Bicentenário, em referência às comemorações de 200 anos do início do processo de independência argentina.

Paralelamente, o governo impõe licenças não automáticas de importação e faz pressões explícitas sobre os fabricantes, na tentativa de arrancar novos investimentos. Em outubro, o presidente mundial da Pirelli chegou a Merlo (a 34 quilômetros de Buenos Aires) pronto para comunicar um investimento de US$ 80 milhões na ampliação de sua fábrica local. Depois de uma conversa a portas fechadas com a presidente Cristina Kirchner, surpreendeu e desembolsou US$ 20 milhões a mais. A capacidade de produção, principalmente nos segmentos de utilitários leves e de utilitários esportivos, subirá de 5 milhões para 6 milhões de pneus por ano. De um déficit atual de US$ 12 milhões, a fábrica passará a ter superávit de US$ 8,5 milhões a partir de 2012, exportando principalmente ao mercado brasileiro.

Outra empresa que anunciou um importante investimento, no fim do ano passado, foi a Fate, fabricante de pneus para ônibus e caminhões. A companhia desembolsará US$ 230 milhões para duplicar a produção e atingir 800 mil unidades por ano, abrindo mais 380 postos de trabalho e substituindo importações em até US$ 90 milhões.