Título: Esperando Dilma
Autor: Romero, Cristiano
Fonte: Valor Econômico, 02/02/2011, Brasil, p. A2
A deterioração das expectativas de inflação já supera a que ocorreu no último período de aceleração de preços vivido pela economia brasileira, no primeiro semestre de 2008. O que diferencia os dois momentos é que, no caso anterior, o que provocou a piora das expectativas foi um forte choque de preços de commodities. Agora, há novamente um choque de preços, mas o que está realmente pesando é a perda de credibilidade do governo para combater a inflação.
As expectativas colhidas pelo Boletim Focus, divulgado pelo Banco Central (BC), mostram que, entre maio e julho de 2008, portanto, no espaço de apenas dois meses, a inflação esperada para os 12 meses seguintes aumentou um ponto percentual, saltando de 4,4% para 5,4%. Naquele momento, o mundo vivia um preocupante choque de preços de alimentos.
No Brasil, a economia estava em processo de aceleração, gerando pressões inflacionárias. Com o claro objetivo de moderar o ritmo de crescimento e conter os preços, o BC começou a aumentar a taxa de juros em abril de 2008. Por causa do choque de preços, o mercado passou a esperar uma inflação mais alta, mesmo com o aperto monetário.
Sem corte de gastos, expectativas só pioram
Em agosto de 2008, no entanto, o BC conseguiu reverter as expectativas, que voltaram a piorar dois meses depois por causa da fase mais aguda da crise internacional, deflagrada pela quebra do banco Lehman Brothers (ver gráfico). Superado o pior momento da turbulência no último trimestre daquele ano, as expectativas de inflação melhoraram.
Em 2010, a economia entrou mais uma vez em ritmo de crescimento acelerado e as expectativas inflacionárias tornaram a se deteriorar. O BC conseguiu controlá-las por um breve espaço de tempo, entre maio e junho, mas depois elas só pioraram. Em 12 meses (entre fevereiro de 2010 e janeiro de 2011), pularam de 4,5% para 5,5%.
A presidente Dilma Rousseff tomou posse há pouco mais de um mês, emitindo sinais positivos sobre a condução da economia. Prometeu dar autonomia ao BC e retomar o caminho da disciplina fiscal. De fato, o BC iniciou um novo aperto monetário, dessa vez valendo-se também de medidas macroprudenciais, que têm duplo objetivo: resguardar a saúde do sistema financeiro e diminuir a demanda agregada da economia.
Sendo assim, por que as expectativas seguem piorando? Uma provável resposta está no fato de o governo ainda não ter anunciado o tamanho do corte que fará no orçamento federal deste ano. No mercado, predomina o ceticismo. Para alguns, o arrocho nas contas públicas não será suficiente para fazer cócegas na demanda. Para outros, o ajuste não ocorrerá simplesmente porque a equipe que o prepara é a mesma que, nos últimos dois anos, relativizou a importância do superávit primário.
Uma autoridade assegurou a esta coluna que o ajuste está a caminho e que não saiu ainda porque o governo decidiu esperar a posse do novo Congresso. Quanto à desconfiança do segundo grupo, assegurou: "O ministro Guido Mantega [da Fazenda] é um cumpridor de ordens". A conferir.
O economista Nilson Teixeira e sua equipe, do Credit Suisse, constataram, em pesquisa, que a inflação de serviços tem subido, desde 2004, acima dos núcleos de inflação tanto nos países ricos quanto nos emergentes. No Brasil, isso vem ocorrendo desde 2005 por três razões: reajustes mais expressivos dos rendimentos reais, inércia inflacionária e queda do desemprego.
A pesquisa mostra que, ao contrário do que ocorre em outros países, no Brasil a relação entre inflação de serviços e atividade econômica é menos significativa. No primeiro semestre de 2009, por exemplo, os preços continuaram subindo, apesar da recessão. Outros achados: 52% dos serviços têm os preços determinados pela inflação passada (inércia); 26% respondem à variação do salário mínimo; apenas 22% têm relação com a atividade.
Para desinflacionar os serviços, o governo terá, portanto, que diminuir o grau de indexação da economia (de contratos como aluguel, tarifas públicas etc.), controlar o salário mínimo e trabalhar sempre para ter uma inflação mais baixa (para diminuir a inércia).