Título: Preço elevado incentiva o avanço do sorgo na Bahia
Autor: Lopes, Fernando
Fonte: Valor Econômico, 02/02/2011, Agronegócios, p. B15

A disparada das cotações do milho nos mercados internacional e doméstico motivou um forte aumento dos preços do sorgo em regiões produtoras do país nos últimos meses. Ainda que a valorização não seja suficiente para que essa alternativa mais barata ao milho desbanque o "primo rico" na estratégia de plantio da maior parte dos agricultores que investem em grãos destinados sobretudo a rações animais, no sudoeste baiano a tendência estimulou a substituição de plantações de feijão, prejudicadas pelo clima adverso nas últimas temporadas. Não por outro motivo é a Bahia que puxa o aumento da produção brasileira de sorgo nesta safra 2010/11, cuja colheita está em andamento. Conforme levantamento da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), a área plantada no Estado com a cultura cresceu expressivos 153,5% em relação a 2009/10 e alcançou 240,8 mil hectares. Como o órgão prevê para o sorgo baiano produtividade 50,6% maior, de 1.691 quilos por hectares, a colheita esperada é de 407,2 mil toneladas, 282% superior à do ciclo anterior. Ainda é difícil comparar o movimento na Bahia com o de outros importantes Estados produtores porque nestes, situados no Centro-Sul do país, o sorgo entra principalmente na safrinha de inverno, para a qual ainda não há estimativas oficiais mais concretas. Mas pelo menos em Goiás, que tradicionalmente lidera a produção nacional, não há expectativa de incremento. Por enquanto, a Conab estima uma área plantada total no país de 850,4 mil hectares em 2010/11, 21,9% maior que a do ciclo 2009/10, com produtividade média de 2.303 quilos por hectare (1,1% menor) e colheita de 1,959 milhão de toneladas, um salto de 20,6%. Segundo Alcides Viana, assessor de agronegócios da Associação de Agricultores e Irrigantes da Bahia (Aiba), um dos municípios do sudoeste do Estado que registram maior avanço do sorgo granífero sobre áreas de feijão é Irecê. Apesar da tradição dos pequenos produtores do município no plantio de feijão, as menores regularidade e uniformidade das chuvas nas últimas temporadas abriram espaço para a troca. Em toda a Bahia, a produção de feijão deverá recuar 16,2% em 2010/11, segundo a Conab. Hoje ainda não há sorgo disponível naquela região, mas há indicações de que a saca de 60 quilos poderia estar sendo negociada a R$ 22,50 se houvesse oferta.

A valorização do sorgo tem acompanhado a curva de alta do milho. Conforme Viana, no oeste da Bahia, principal polo de grãos do Estado, os preços do milho começaram a reagir em julho, depois que os produtores da região já tinham concluído seus planejamentos para a safra 2010/11. Atualmente a saca de milho é comercializada em torno de R$ 30 no oeste, ante as médias de R$ 18,26 de 2010 e de R$ 16,33 de 2009. "Como o valor da saca do sorgo é taxado pelo seu valor de proteína em comparação com o milho, que é de 75%, a cultura fica totalmente inviável quando o milho se encontra em cenário de baixo preço", afirmou o assessor.

É por isso que na região oeste em si, de Cerrado, onde a produção agrícola é liderada por soja, milho e algodão, o sorgo não encontrou espaço para expansões em 2010/11. Ali, estima Viana, a área permanece em cerca de 13 mil hectares e qualquer aumento só poderá acontecer depois da colheita das variedades precoces de soja, a partir de meados deste mês. Se de fato houver alguma expansão, é até possível que a Bahia deixe Goiás para trás e assuma a liderança entre os principais Estados produtores de sorgo do país.

Em suas estatísticas, a Conab ainda mantém para Goiás a mesma área de sorgo semeada em 2009/10 (243,3 mil hectares), com produtividade 2,2% superior (2.525 quilos por hectare) e colheita de 614,3 mil toneladas, também 2,2% maior. No Estado, 90% da semeadura é realizada na safrinha de inverno, cujo plantio ainda está sendo definido. Para Alexandro Alves, assessor técnico da Federação da Agricultura e Pecuária de Goiás (Faeg), a expectativa da entidade é de leve redução da área na próxima safrinha. "Como o milho está em disparada, os produtores que plantaram soja no verão estão preferindo o milho na safrinha". A colheita de soja deverá começar "oficialmente" no campo goiano nos próximos dias.

A preferência pelo milho está ligada à vocação dos agricultores e à maior liquidez do milho, um grão mais nobre do que o sorgo. "Por isso é difícil o produtor tradicional mudar de ideia. Mas o produtor "investidor" ainda pode substituir a aposta", afirma Alves. No mercado de Goiás, a saca de 60 quilos do sorgo subiu de R$ 10,91, em janeiro de 2010, para R$ 16,85 no mês passado (alta de 54,4%), enquanto a saca de milho passou de R$ 13,88 para R$ 22,55 na mesma comparação (alta de 62,5%). O custo do plantio do sorgo está calculado pela Faeg em R$ 10,70 por saca, ante os R$ 17,17 do milho.