Título: PT dá cargo a Lula para manter seu protagonismo
Autor: Costa, Raymundo; Bittar, Rosângela
Fonte: Valor Econômico, 11/02/2011, Especial, p. A16

A recondução de Luiz Inácio Lula da Silva ao comando do PT é mais que uma homenagem ao seu líder maior, nesses 31 anos de existência partidária. Com a decisão, o Partido dos Trabalhadores faz uma aposta na manutenção de Lula como protagonista da cena política. É um modelo que costuma ser seguido pelos partidos europeus.

O título é honorífico, "presidente de honra". O presidente de direito do PT é o ex-senador José Eduardo Dutra. Mas, na prática, Lula vai falar não só para dentro do PT, como fez recentemente no debate do reajuste do salário mínimo, como também de dentro do PT (e do governo) para fora do partido, aos segmentos sociais como um todo.

Segundo um dos líderes do PT mais bem situados no atual governo, amigo de Dilma Rousseff e de Lula, "ele será mais presidente de honra do PT do que ex-presidente da República".

Ao reconduzir Lula, o PT resolve dois problemas de uma tacada só: o ex-presidente terá carteira assinada e um salário de pouco mais de R$ 13 mil e, em segundo lugar mas não menos importante, poderá se movimentar no cenário político internacional e nacional, neste caso, sem dar margem a críticas - que ele tantas vezes dirigiu ao tucano Fernando Henrique Cardoso - de não guardar o silêncio obsequioso esperado dos ex-presidentes. No entendimento petista, quando falar Lula emitirá opinião como "expressão maior" do Partido dos Trabalhadores.

A pré-estreia do que deve ser esse protagonismo do ex-presidente se deu esta semana, antes mesmo de Lula assumir o título honorífico de presidente de honra. De Dacar, capital do Senegal, onde foi para participar do Fórum Social Mundial, Lula acusou as centrais sindicais de "oportunismo" pelas críticas feitas à proposta do governo de reajuste do mínimo.

Segundo as centrais, Dilma estaria rompendo com a política de valorização do mínimo iniciada por Lula. Ocorre que o reajuste proposto pelo governo obedeceu os termos do acordo, que este ano serão desfavoráveis aos trabalhadores, devido à crise econômica de 2009, mas já em 2012 entrarão em posição privilegiada nas negociações, devido ao crescimento registrado em 2010.

"O que não pode é os nossos companheiros sindicalistas, a cada momento, mudar a regra do jogo", disse o ex-presidente. "Ou você tem uma regra e todo mundo fica tranquilo, ou você fica com o oportunismo".

Lula falou para fora, mas também para dentro do PT, que não aceitava pacificamente a possibilidade de ver o PDT/ Força Sindical conseguirem aprovar, no Congresso, algo mais do que o valor de R$ 545 proposto pelo governo. O episódio serviu também para aumentar as dúvidas sobre o grau de dependência da presidente Dilma em relação ao antecessor.

Duas versões correm no PT. Uma informa que Dilma teria pedido a declaração a Lula. Outra, que o ex-presidente atacou por conta própria as centrais sindicais. Nas duas vertentes, há um único ponto comum: antes de falar, Lula conversou sobre a polêmica do salário mínimo com ministros do Palácio do Planalto.

Comandantes do PT se apressam a dizer que Lula não pensa em voltar ao Palácio do Planalto e que a torcida de todos no partido é que Dilma dê certo e concorra à reeleição. Isso seria benéfico ao país, com a manutenção de um processo natural de renovação de seus líderes. Os 26 anos passados desde o fim da ditadura já são o maior período de continuidade democrática da história do país.

A certeza de que o ex-presidente não vai atrapalhar a presidente não quer dizer que uma nova candidatura de Lula seja um tema desprezado no PT. A torcida, em geral, é para que ela faça um bom governo e chegue a 2014 em condições competitivas para disputar a reeleição. Não há propriamente um cenário para a hipótese de a presidente ir "muito mal". Mas existe a do "mais ou menos". Um cenário em que cabe discussão de uma nova candidatura de Lula, "para não deixar a oposição derrotar o projeto". Ainda assim, há no PT quem julgue que Lula deva pensar duas vezes: ele deixou o governo com 83% de aprovação, se eventualmente voltar com 70%, já seriam 13 pontos a menos para quem saiu de Brasília quase na condição de "mito".