Título: Melhor, mas longe do ideal
Autor: Souza , Cristiano
Fonte: Valor Econômico, 18/02/2011, Opinião, p. A14

Um brasileiro que tivesse dormido no início de 1994 e acordado em 2011 certamente teria um grande choque. Desde então, a inflação foi controlada; os temores de iminentes crises fiscais e de balanço de pagamentos foram em larga medida debelados; a média de crescimento econômico dos últimos anos foi superior a 4,5%, ajudando a melhorar muito a distribuição de renda; recebemos grau de investimento e sediaremos uma Copa do Mundo e a primeira Olimpíada da América do Sul. Esse cidadão pensaria estar no paraíso, certo?

Bem, em um olhar aprofundado, não necessariamente. Somos, inegavelmente, uma nação muito melhor que há 17 anos. Os governos desde então mais acertaram que erraram, contribuindo para todas essas benesses. Porém, não podemos nos iludir com os bons resultados frente ao enorme volume de trabalho a ser realizado para realmente desenvolver o país.

Em primeiro lugar, um dos entraves mais discutidos para a continuidade do crescimento é a nossa infraestrutura. Estradas esburacadas, portos que não dão rápida vazão às mercadorias, aeroportos apinhados e eventuais apagões sempre nos lembram de que são necessários muitos investimentos no país para diminuir o custo extra de produção imposto por problemas nesses serviços. A princípio o novo governo trabalhará intensamente para isso, mas não se pode acreditar em pronta solução.

Porém, a infraestrutura é apenas o problema mais visível do país. O Relatório de Competitividade Global, divulgado pelo Fórum Econômico Mundial, mostra que os 12 pilares de competitividade apresentados pela pesquisa evidenciam que o Brasil é consistentemente pior do que competidores diretos no cenário internacional, a exemplo de Rússia, Índia, China, México, Indonésia ou Turquia, em assuntos como infraestrutura, educação, saúde e regulação de mercados. No entanto, por conta do dinamismo do setor privado, o país recorrentemente se sai melhor naqueles assuntos ligados ao setor privado, como desenvolvimento do mercado financeiro, disponibilidade de tecnologia ou sofisticação de negócios.

Mais dados são encontrados na pesquisa Doing Business do Banco Mundial, que mostra serem necessários 120 dias para se abrir um negócio no Brasil, o 7º maior valor entre 183 países.

Estamos em melhor colocação nas garantias de contratos: 66º. Mas o resultado que mais assusta é a quantidade de horas necessárias para preparar e pagar impostos. Nesse quesito somos campeões disparados na amostra, com 2.600 horas/ano. A Bolívia, segunda colocada, utiliza 1.080 horas/ano. Os demais 181 países pesquisados utilizam menos que mil horas/ano.

Entretanto, quando se fala em investimento e crescimento geralmente se ignora a questão educacional, minha maior preocupação pessoal. A mais recente pesquisa do Programa Internacional de Avaliação de Alunos (Pisa, na sigla em inglês), divulgada pela Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) há poucas semanas, mostrou que mais de 50% dos estudantes brasileiros de 15 anos são incapazes de compreender um texto ou utilizar conhecimentos básicos de matemática e ciências para resolver problemas do dia a dia, um dos piores resultados na amostra de 65 países. Isso é muito preocupante, principalmente por que investimentos em educação demoram a dar frutos. Os programas de educação implementados nos anos 60 na Coreia e em Taiwan (sempre nos primeiros lugares dessa pesquisa, com apenas cerca de 10% dos alunos com desempenho fraco), por exemplo, levaram mais de duas décadas para impulsionar crescimento. Ademais, a julgar por acontecimentos recentes, o Brasil não parece dispor dos meios para resolver esses problemas. Isso deverá cobrar um preço alto à frente, quando os alunos de hoje começarem a entrar no mercado de trabalho e a qualificação cada vez mais baixa impuser custos crescentes de treinamento.

O Brasil tem, em geral, melhorado sua posição nessas pesquisas a cada ano. Mas o progresso tem sido lento e a mensagem transmitida em consonância é que o governo precisa aumentar sua eficiência de modo a impulsionar o desenvolvimento do país. Algumas formas para fazê-lo já são de domínio público: grandes reformas (previdenciária, trabalhista, tributária); recuperação da agenda interrompida de microrreformas; aumento da razão investimento/PIB, principalmente com o estímulo de maiores inversões governamentais; e maior segurança jurídica para contratos.

Contamos, hoje, com alguns benefícios. O principal é que a presidente eleita parece concordar com essa visão, principalmente por ter coordenado o PAC. Em segundo lugar, porque hoje em dia a sociedade dá mostras de estar mais disposta a atacar esses problemas (apesar de algumas reformas não parecerem ser do agrado do público). Por fim, a presidente possui ainda mais apoio político no Congresso que seu antecessor para aprovar as medidas necessárias. Em vista da quantidade e complexidade dos problemas do Brasil, seria ingênuo acreditar que as soluções pudessem ser obtidas de forma rápida e fácil. Demoraremos provavelmente décadas para resolver os entraves atuais, mesmo se as medidas forem adotadas de forma eficiente. Mas a presidente Dilma se encontra em posição mais privilegiada que seus anteriores para iniciar esse processo, garantir a sustentabilidade do crescimento e o desenvolvimento do país por anos à frente.