Título: Com PIB em alta, inflação sai da meta e preocupa
Autor: Rittner, Daniel
Fonte: Valor Econômico, 01/03/2011, Especial, p. A18
De Montevidéu
Sem recessão há oito anos e com a taxa de desemprego mais baixa de sua história recente, o Uruguai deverá crescer de 4,5% a 6% em 2011. Em nenhum outro país da região a última crise mundial passou de forma tão suave, como uma "marolinha", quanto por aqui. Houve expansão de 2,9% em 2009, enquanto os mercados derretiam no Brasil, e estima-se que o PIB tenha saltado 8% no ano passado - sem a desculpa de que os números foram turbinados pela frágil base de comparação estatística.
Os investimentos na agropecuária, com a presença cada vez maior de brasileiros e de argentinos, não param de chegar. Estrangeiros já detêm um em cada quatro hectares de terras cultivadas. A construção civil e o setor de celulose também estão a todo vapor. Agora, em um sinal de que a economia pode estar se expandindo além de suas possibilidades, a disparada da inflação move as discussões de analistas locais. Perto da vizinha Argentina, que disputa palmo a palmo com a Venezuela o incômodo título de maior inflação da América Latina, a alta dos preços não assusta. Mas quase todos os economistas dão como certo que o Uruguai não conseguirá alcançar a meta fixada pelo Banco Central, de 4% a 6%, e precisará baixar a velocidade de crescimento do gasto público.
O próprio BC, em seu último relatório de política monetária, admite "preocupação" com as "maiores ameaças inflacionárias" e cita três fatores que têm pressionado os preços: a elevada demanda interna, a alta internacional dos alimentos e o aquecimento do mercado de trabalho.
O economista Jorge Caumont, professor da Universidade ORT, acredita que a inflação estará "próxima dos dois dígitos", podendo superar 9%, e será "o principal problema macroeconômico a resolver" em 2011. "O governo manterá uma política fiscal sumamente expansiva e uma política monetária de validação dos aumentos de preços", diz.
Já o sócio-diretor da consultoria Oikos, Ramiro Almada, prevê inflação de 6,4% no ano. "Se as perspectivas para a atividade econômica se concretizarem, ficará bastante complicado atingir a meta", avalia. Ele não vê a necessidade de frear subitamente o crescimento da economia, alegando que o governo tem sido "bastante cauteloso e responsável", mas destaca que a meta de inflação do ano passado - entre 3% e 7% - só foi cumprida graças ao adiamento de reajustes dos preços administrados.
Mesmo assim, o índice de 2010 esteve no limite: registrou alta de 6,93%. O aumento da gasolina ficou para a primeira semana de janeiro, mas foi insuficiente diante da escalada da cotação do petróleo, segundo Almada. As contas de luz subiram abaixo da inflação. Tarifas de ônibus e planos de saúde permaneceram estáveis. "E as tarifas da Antel (estatal de telefonia) não aumentam há três anos."
Almada considera que, pelos baixos níveis de crédito e pelo grau de dolarização da economia uruguaia, falharam as tentativas do BC de controlar a inflação via aumento de juros. Desde 2005, a taxa básica definida pelo BC subiu do patamar de 5% para o pico de 7,25%, mas os efeitos foram limitados. Por isso, cresce agora a pressão por outros mecanismos, como menos gastos públicos e uma política de contenção dos reajustes salariais.
"Embora seja improvável que aceitem essa sugestão, não seria ruim que o governo mudasse seu enfoque econômico, com uma política fiscal muito mais restritiva e uma política salarial que limite os aumentos nominais à inflação média projetada e a um percentual (inferior a 100%) do crescimento da produtividade da mão de obra em cada setor", defendeu, em editorial, o semanário "Búsqueda". (DR)