Título: Iene atinge maior nível desde 2ª Guerra com medo de repatriação de recursos
Autor: Mead, Charles; Saraiva, Catarina
Fonte: Valor Econômico, 17/03/2011, Finanças, p. C2

O iene atingiu ontem seu nível mais alto desde a Segunda Guerra Mundial em relação ao dólar, com o risco de vazamentos radioativos de usinas nucleares abaladas pelo terremoto no Japão contribuindo para especulações de que seguradoras e investidores irão resgatar ativos nos mercados internacionais para pagar pelos danos. A cotação da moeda japonesa rompeu o importante nível psicológico de US$ 80,00 e fechou valendo US$ 79,59, uma alta de 1,42%.

A moeda japonesa subiu pelo quarto dia seguido, em meio a rumores de que a força do iene poderá levar a uma intervenção do Banco do Japão (BoJ) para enfraquecê-lo, medida adotada pela instituição pela última vez em setembro.

Já o euro caiu pela primeira vez em quatro dias, depois que a agência de avaliação de crédito Moody"s Investors Service rebaixou a classificação de Portugal, renovando as preocupações com a capacidade da zona do euro de resolver sua crise da dívida. O franco suíço, por sua vez, teve alta, depois que a onda de violência no Oriente Médio e as preocupações com o Japão levaram a uma onda de compra de ativos em lugares considerados mais seguros.

"Quanto mais manchetes macabras surgirem envolvendo os reatores nucleares, mais especulações veremos em relação à repatriação [de recursos]", disse ontem Jessica Hoversen, analista da corretora de futuros MF Global Holdings em Chicago. "Acredito que 80 é a linha divisória para o banco central."

O euro caiu 0,6% para US$ 1,3920, ante US$ 1,3998 na terça.

"Há preocupações fundamentadas de que se houve uma queda desordenada do dólar em relação ao iene, o Banco do Japão poderá começar a intervir", diz Paresh Upadhyaya, diretor de estratégia de câmbio do Bank of America para os dez maiores países das Américas. "Desta vez haverá apoio a uma intervenção unilateral. Para o Japão reconquistar sua competitividade, ele precisará do iene mais fraco. Eles podem agora formar um argumento econômico para isso."

Numa tentativa de reduzir a valorização de 15% registrada pelo iene no último ano, o Banco do Japão vendeu 2 trilhões de ienes (US$ 25 bilhões) em setembro, na primeira intervenção das autoridades do país no mercado de câmbio desde 2004. Os governos e os bancos centrais interferem no mercado vendendo ou comprando moedas para influenciar os preços.

"Uma alta do iene poderá ser um evento desestabilizador, segundo Robert Sinche, diretor global de estratégia de câmbio da RBS Securities, uma unidade do Royal Bank of Scotland em Stamford, Connecticut.

"Acho que eles vão intervir e que as autoridades dos Estados Unidos e da Europa estarão de acordo. Se houver necessidade de atividade agora, o Federal Reserve agirá em nome do Banco do Japão."

A coroa sueca teve ontem a maior queda em relação às grandes moedas, recuando 1,2% para 6,4746 coroas por dólar e 1,8% para 12,38 ienes. O peso mexicano caiu 0,9% para 12,0987 pesos por dólar e a libra esterlina perdeu 0,4% para US$ 1,6015.

A coroa norueguesa chegou a subir em relação ao dólar, ontem, depois que o Norges Bank, o banco central local, decidiu manter sua taxa referencial de juro em 2% e o vice-presidente do banco Jan F. Qvistad disse que os formuladores de política monetária elevaram "ligeiramente" suas previsões de aumentos futuros. A coroa caiu 0,3 para 5,6764 coroas por dólar e recuou 1% para 14,12 ienes.

O euro caiu depois que Portugal teve sua classificação de crédito reduzida em dois pontos pela Moody"s, para "A3", a quatro níveis do chamado "status junk". A companhia mencionou o ambiente econômico "menos consistente" do país.

O franco suíço avançou para um patamar recorde em comparação ao dólar por causa da demanda dos investidores por um refúgio, em meio às turbulências no Oriente Médio e no Japão. Bahrain fechou sua bolsa de valores depois que os enfrentamentos entre as forças de segurança e os manifestantes contra o governo se intensificaram. A moeda subiu 0,8% em comparação ao dólar ontem, para 90,92 centavos por dólar, depois de bater nos 90,73 centavos, o maior nível desde pelo menos 1971, quando a Bloomberg iniciou seus registros.

"As atenções continuarão voltadas para o Bahrain e para o Japão", disse Kathy Lien, diretora da análise de câmbio da operadora online de câmbio GFT Forex de Nova York. "Por enquanto, a aversão ao risco continuará predominando sobre o mercado."

O iene já se valorizou 3,5% desde o maior terremoto que já atingiu o Japão, na semana passada, provocou um tsunami que engoliu a costa nordeste do país e danificou reatores nucleares.

O Banco do Japão jogou ontem no sistema financeira 5 trilhões de ienes em operações de um dia. O banco central já injetou 28 trilhões de ienes no sistema desde 14 de março, depois que o presidente da instituição, Masaaki Shirakawa prometeu continuar colocando dinheiro na economia para estabilizar os mercados.

A moeda bateu nos 80,22 ienes por dólar em 1º de novembro, depois que o Federal Reserve anunciou uma segunda rodada do chamado afrouxamento quantitativo para adquirir US$ 600 bilhões em títulos do Tesouro americano. Os EUA são o segundo maior parceiro comercial do Japão.

A moeda atingiu seu mais alto patamar em três meses depois da Segunda Guerra Mundial, depois do terremoto de Kobe, de magnitude 6,9, por causa de especulações de que negociações bilaterais para a abertura do mercado automobilístico japonês para as exportações dos EUA iriam fracassar. Quase dois terços do déficit comercial de US$ 66 bilhões dos EUA com o Japão em 1994 vieram dos automóveis e autopeças, e a administração Clinton repetiu em abril de 1995 ameaças de que se as negociações não fossem bem sucedidas, poderiam levar os EUA a impor sanções ao Japão.