Título: FMI coloca em xeque sistema de metas apenas para conter inflação
Autor: Ribeiro, Alex
Fonte: Valor Econômico, 09/03/2011, Finanças, p. C6

O sistema de metas de inflação, em que os juros servem apenas para assegurar a estabilidade de preços, foi colocado em xeque pelo economista-chefe do Fundo Monetário Internacional (FMI), Olivier Blanchard, em seminário promovido pelo organismo nos dois ultimos dias em Washington. Os bancos centrais, pregou, devem ter outros objetivos explícitos além do controle da inflação, como a estabilidade financeira e "metas relacionadas a taxas de câmbio". O novo papel da política monetária foi apenas um dos temas polêmicos num debate que reuniu alguns dos melhores acadêmicos do mundo todo, incluindo prêmios Nobel como Joseph Stiglitz, George Akerlof e Robert Solow, com o objetivo de jogar luz sobre os rumos do pensamento econômico depois da grande crise ocorrida a partir de 2007. Uma das preocupações, por exemplo, é a falta de conhecimentos mais concretos sobre quanto a política fiscal estimula a economia.

"Os últimos anos representaram uma crise não apenas para a economia global, mas também para os economistas", definiu o diretor-gerente do FMI, Dominique Strauss-Kahn, na abertura do seminário. Armínio Fraga, ex-presidente do Banco Central e sócio da Gávea Investimentos, foi o único brasileiro nas mesas de discussão.

"Antes da crise, convergimos para o belo em termos de políticas macroeconômicas", disse Blanchard, referindo-se à simplicidade e elegância de um sistema com apenas uma meta e um instrumento. "Infelizmente, beleza não é sinônimo de verdade."

Com a crise, afirmou ele, ficou claro que, além do controle da inflação, é essencial também buscar a estabilidade financeira.

Banqueiros centrais do mundo todo já estão se deslocando para esse novo paradigma, mas a estabilidade financeira ainda não é vista como uma meta direta da política monetária. Eles tendem a usar os juros apenas para garantir a estabilidade da inflação, enquanto a regulação prudencial cuidaria da estabilidade financeira.

"Não estou absolutamente certo de que esse é o caminho", afirmou Blanchard. A política monetária tem influência na estabilidade financeira, argumentou, pois juros muito baixos alimentam bolhas. Da mesma forma, medidas regulatórias também afetam a atividade econômica e inflação. "Teremos que pensar numa política monetária tendo várias metas, duas ou três." Da mesma forma, os instrumentos são múltiplos, incluindo regulação e intervenções no câmbio.

No caso dos países emergentes, disse, "também deve haver uma meta relacionada à taxa de câmbio, suavizando movimentos". Segundo ele, muitos países emergentes já fazem isso, mas usam o discurso de que o câmbio só interessa na medida em que afeta a inflação.

Um dos criadores do sistema monetário de dois pilares adotado pelo Banco Central Europeu (BCE), que ao mesmo tempo tem características de metas de inflação e do velho monetarismo, o economista alemão Otmar Issing criticou o sistema de meta de inflação puro porque ele não foi capaz de identificar e combater bolhas financeiras que levaram à crise econômica.

"Praticamente não há nenhuma bolha financeira na história que não tenha sido precedida por crescimento no volume de dinheiro e crédito", afirmou. Ele também defendeu a estabilidade de preços como único objetivo da política monetária, em que se pese a preocupação com emprego e atividade econômica sempre presente entre os bancos centrais. "A única coisa que um banco central pode alcançar é a estabilidade de preços e nada mais", afirmou.

Guillermo Ortiz, que deixou recentemente a presidência do Banco do México depois de dez anos no cargo, argumentou que o sistema de metas de inflação foi fundamental para os países emergentes conquistarem a estabilidade de preços. "Às vezes, nos esquecemos do que foi a inflação na América Latina."

Para Armínio Fraga, não se deve pedir demais aos bancos centrais. "A inflação é o mais importante, e espero que não percamos o foco nisso", afirmou. As demandas, afirmou, não se restringem apenas a estabilidade financeira e taxa de câmbio, mas também a atender a preocupações fiscais do resto do governo. "Sabemos aonde isso acaba."

"É bastante interessante que aqueles [economistas] de países que sofreram as consequências da alta inflação são os mais resistentes a propostas que podem sobrecarregar a política monetária", observou Jacob Frenkel, ex-economista-chefe do FMI e ex-presidente do Banco de Israel, referindo-se à resistência entre alemães e latino-americanos em ter mais de uma meta para a política de juros.