Título: Eventos externos dificultam análises, dizem economistas
Autor: Bittencourt, Angela
Fonte: Valor Econômico, 24/03/2011, Especial, p. A16
De São Paulo As instituições financeiras vêm enfrentando uma dificuldade real para avaliar premissas críticas na elaboração de cenários para a economia brasileira. Eventos externos recentes são emblemáticos sobre impactos imponderáveis nos preços das commodities em geral e do petróleo em particular. "Dificuldade existe sempre. Mas não se pode negar que neste ano, além de não se saber quando e quanto o Federal Reserve (banco central americano) vai dar duro [elevar a taxa de juro], quando e quanto a China vai desacelerar, o preço do petróleo fica mais difícil de projetar por causa do norte da África", comenta José Francisco de Lima Gonçalves, economista-chefe do Banco Fator e professor da FEA/USP.
Sobre o Japão, descontada a hipótese de crise nuclear, Gonçalves vê muito exagero nas expectativas. "A região do terremoto é pobre, a região da usina tem poucas indústrias. Não conheço porto relevante na região. Acho que o esforço de reconstrução vai gerar mais renda do que a riqueza destruída", diz.
Jankiel Santos, do Banco Espírito Santo, acha difícil incorporar às projeções de indicadores eventos como crise no Oriente Médio e o desastre no Japão. Eles são tratados como fator de risco. "Petróleo e Japão recebem tratamento muito parecido com o apagão ou a possibilidade de uma nova recessão durante esse período de recuperação dos EUA. São fatores de risco e não hipóteses de trabalho. Não dá para especular e incluir em cenário se Gadafi vai permanecer mais um ou dois meses no poder", diz.
Entre variáveis domésticas que turvam os cenários está o superávit primário que parte dos analistas duvida que será cumprido e a sinalização dada pelo Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central de que a inflação vai dar uma arrancada estatística no terceiro trimestre, retomando a trajetória de queda em seguida. "Setembro e outubro delimitam um horizonte crítico para o Banco Central, porque a crença de que a meta de superávit primário será cumprida neste ano será testada num momento de pressão inflacionária e com forte influência sobre perspectivas para 2012", diz. "Se a política fiscal não estiver dando o resultado prometido, as projeções de inflação para 2012 estarão definitivamente comprometidas", alerta o economista. (AB)