Título: Objetivo dos EUA é duplicar exportações totais em cinco anos
Autor: Moreira, Assis
Fonte: Valor Econômico, 18/03/2011, Brasil, p. A4
De Washington A agenda comercial do presidente Barack Obama na sua visita ao Brasil neste fim de semana se enquadra numa estratégia maior do governo americano para duplicar as exportações em cinco anos, usando ferramentas como a promoção de produtos, lobby em defesa de empresas americanas e pressão para a liberalização e abertura de mercado.
Em documento que detalha essa iniciativa exportadora, o Brasil é citado 25 vezes, atrás apenas da China, com 34 menções. O Brasil foi eleito um dos países prioritários para as chamadas ações de advocacia comercial, ou seja, a defesa de interesses de empresas americanas na disputa de contratos importantes no exterior, pelo uso de instrumentos como financiamentos de instituições com o Eximbank ou por meio de gestões com os governo estrangeiros.
A Boeing é um exemplo de empresa que vem recebendo apoio do governo americano, na sua disputa com a francesa Dassault para vender caças ao Brasil. Mas há outros setores que estão pedindo o apoio do governo americano, como construção civil e tecnologia. Os empresários americanos têm reclamado da falta de acesso ao mercado brasileiro para obras de infraestrutura.
"A Odebrecht está construindo metade do Sudeste americano e não há nenhum problema com isso", disse recentemente ao Valor o ex-secretário para a América Latina no governo George W. Bush, Roger Noriega. "Mas, quando falo com as maiores construtoras americanas, muitas estão receosas de colocar muita energia no Brasil porque não tiveram um ambiente muito hospitaleiro no passado." Segundo ele, as empresas americanas veem o Brasil como um território proibido, porque "o mercado é relativamente fechado". Ele acha que os interesses são mútuos e os problemas podem ser resolvido com o diálogo envolvendo os governos e empresário dos dois países, se o assunto for colocado como prioridade na viagem de Obama ao Brasil.
No fim de semana, deve ser assinado um protocolo sobre grandes eventos esportivos que favorece as empresas americanas na disputa por contratos ligados à construção de infraestrutura para a Olimpíada e a Copa do Mundo de futebol. Debaixo do chapéu desse acordo, o governo americano deverá dar apoio, como financiamento, para as suas empresas competirem com construtoras brasileiras e de outros países.
O governo Obama também deu maior foco ao Brasil nos financiamentos oferecidos pelo Eximbank, colocando-o na lista de nove países prioritários. Um dos resultados é uma linha de US$ 1 bilhão, a ser anunciada na visita, para os projetos do pré-sal da Petrobras. "Os esforços são para dar visibilidade às opções para os compradores estrangeiros adquirirem produtos e serviços de exportadores dos Estados Unidos", afirma o documento que detalha a iniciativa de Obama para a exportação.
Os setores de energia alternativa, infraestrutura e aviação são apontados como prioritários na chamada frente de promoção comercial, que basicamente é um esforço para levar os empresários americanos a vender no Brasil. Nesta semana, num documento sobre as relações entre os dois países divulgado pela Casa Branca, são citadas como exemplo duas empresas americanas, a WindStream e a Capstone Turbine, que fecharam contratos para vender turbinas que produzem energia com vento e gás metano.
Dentro de sua agenda para dobrar as exportações, o governo Obama também busca acordos de liberalização comercial com outros países, além do avanço da Rodada Doha. Doha é um dos assuntos que Obama pretende tratar com Dilma, segundo disse anteontem o assessor da Casa Branca para assuntos de América Latina, Daniel Restrepo.
Segundo um documento enviado recentemente pelo presidente Obama para o Congresso, que detalha a sua estratégia de negociação comercial, os Estados Unidos vão cobrar mais abertura de países como Brasil, Índia e China do que o originalmente discutido nas primeiras versões da Rodada Doha, em 2001. "O notável crescimento de mercados emergentes como China, Índia e Brasil precisa se refletir no resultado final de Doha", afirmou o titular do escritório de negociações comerciais dos Estados Unidos (USTR, na sigla em inglês), Ron Kirk, em artigo publicado pela Reuters na semana passada.
Kirk, que integra a comitiva do presidente Barack Obama, disse que, por exemplo, falta o Brasil assinar o Acordo de Tecnologia da Informação (ITA, na sigla em inglês) da Organização Mundial do Comércio (OMC). "Em Doha, um dos pedidos ao Brasil é que se junte ao ITA", afirmou ele. "É razoável."