Título: Clubes mais seletos
Autor: Pavini, Angelo
Fonte: Valor Econômico, 21/03/2011, Investimentos, p. D1

De São Paulo O total de investidores em clubes de ações na Bovespa vêm caindo, apesar do aumento no número de carteiras. Isso revela uma mudança importante no perfil da aplicação, que está prestes a sofrer ainda uma grande mudança em suas regras preparada pela Comissão de Valores Mobiliários (CVM).

Segundo dados da BM&FBovespa, o total de investidores cai desde 2008, depois de atingir o pico de 154 mil cotistas. Em janeiro deste ano, era de 131.638 cotistas. Ao mesmo tempo, o total de clubes passou de 2.160 em 2007 para 3.008 em janeiro deste ano. Com isso, a média de cotistas por clube passou de 71 em 2007 para 44 em 2010.

Uma das explicações para essa mudança é a pressão da CVM para que os clubes deixem de ser usados como fundos pelas corretoras. Tanto que, até o fim deste mês, a autarquia deve divulgar uma nova regulamentação criando restrições para clubes de grande porte, afirma Otávio Yazbek, diretor da autarquia.

Sem muitas exigências e controles, os clubes deveriam ser instrumentos de aprendizagem. Um forma de estímulo para que grupos de investidores, com alguma afinidade, se reunissem e trocassem experiências de mercado sob orientação de uma corretora.

Na prática, porém, o que aconteceu foi que algumas corretoras criaram verdadeiras linhas de montagem de clubes, abertos a qualquer um, e onde a gestão ficava a encargo da instituição. Assim que um clube atingia o limite legal de 150 investidores, outro era criado. Essa estratégia foi usada com grande sucesso pela Geração Futuro, que chegou a ter dezenas desses clubes. Aliada a um sistema de aplicação programada de baixos valores, de R$ 100, R$ 200 por mês, e a uma gestão acertada em um mix de pequenas empresas e Petrobras, a prática fez da Geração uma das maiores gestoras de ações do mercado.

Mas a pressão da CVM, a partir de 2008, fez com que esse modelo fosse abandonado e muitos clubes fossem transformados em fundos. No caso da Geração Futuro, 40 clubes abertos, com patrimônio de R$ 50 milhões, foram incorporados ao fundo de ações Programado há cerca de dois anos. "Hoje nosso foco não são mais clubes, mas o fundo programado, que tem 38 mil cotistas e R$ 710 milhões", afirma Ana Clara Monteiro Rodrigues, superintendente comercial do Banco Geração Futuro.

Mesmo assim, a Geração ainda tem 256 clubes, a maioria familiares, com patrimônio em torno de R$ 300 milhões. O mínimo para abrir um clube na Geração agora é de R$ 1 milhão. "Não temos mais clubes abertos", explica Ana Clara. Os clubes da Geração cobram taxa de administração que varia de 2% a 4% ao ano.

Assim, desde 2008, clubes mais numerosos, de 100, 150 cotistas, vêm sendo fechados, e os novos surgem com menos participantes. Na maioria, são famílias onde o pai investe em ações e resolve abrir um clube para ter vantagens fiscais ou para começar a ensinar o funcionamento do mercado para os filhos. Ou grupos de amigos, amigas ou colegas de trabalho que se interessam pelo mercado.

Outro fator que está tornando os clubes menos populosos é o fato de as corretoras estarem dando maior ênfase para o investimento individual via home broker. Nele, o ganho com corretagem pode ser maior. E há a maior independência do investidor. "Muita gente prefere investir direto hoje, pois já tem conhecimento básico, não é como antes, quando as pessoas não sabiam nada de mercado e precisavam dos clubes para aprender", lembra Doraci Rodrigues Martins Júlia, responsável pelos clubes da Prosper Corretora.

Nos Estados Unidos, muitas vezes o investidor costuma participar de um clube e ter também sua carteira individual de ações, diz Álvaro Bandeira, sócio da Ativa Corretora. "Eles participam do clube para ter acesso às análises, discussões dos grupos e orientações das corretoras, para depois usar os dados na carteira própria, onde está a maior parte do dinheiro", explica. Bandeira acredita que é isso que está ocorrendo também no mercado brasileiro. "O dinheiro do clube é só a ponta do iceberg das aplicações, o grosso fica nas contas individuais."

A questão fiscal incentiva a criação de clubes familiares, nos casos de valores maiores, pois o investidor não paga imposto a cada troca de ações, mas apenas quando resgata as cotas. Para a pessoa física, no caso dos valores pequenos, há a vantagem da isenção na venda direta de ações até R$ 20 mil por mês, que não existe no clube. Na Ativa, são 148 clubes, com R$ 170 milhões de patrimônio e média de 13 cotistas.

Ao menor interesse das corretoras pelos clubes, soma-se o da bolsa. Preocupada em atingir a meta de investidores pessoa física, de 5 milhões em 2015, a BM&FBovespa não mostra grande entusiasmo pelos clubes, afirmam participantes do mercado. "Falta um pouco de marketing, divulgação e apoio", diz o veterano Peter T. G. Weiss, sócio-diretor da SLW Corretora. "A bolsa não pode esquecer dos clubes, que são grandes estimuladores do crescimento dos investimentos."

Weiss, que completa 40 anos de mercado este ano, lembra que fazia parte do comitê de corretoras da Bovespa para os clubes, extinto após a fusão com a BM&F. "Nunca fui chamado para discutir as campanhas", afirma. Segundo ele, falta algum tipo de incentivo, como desconto ou tarifa especial para o clube. "Posso não entender nada de robô, mas de clubes eu entendo", diz, ironizando o forte investimento da bolsa nos sistemas automatizados de negociação.

A SLW tem cerca de 100 clubes, com patrimônio de aproximadamente R$ 100 milhões. O mínimo para montar um clube é de R$ 300 mil. O maior deles, na SLW, tem 60 pessoas e patrimônio de R$ 6 milhões. A média dos clubes é de R$ 1 milhão. A corretora cobra taxa de administração de 0,5% ao ano até 3% ao ano.

Procurada, a BM&FBovespa, responsável pelo registro e fiscalização dos clubes, não quis se pronunciar.