Título: Depois de discurso de Tombini, projeções para o IPCA sobem
Autor: Otoni , Luciana
Fonte: Valor Econômico, 29/03/2011, Brasil, p. A3
As expectativas de inflação dispararam na última semana. A piora das projeções de economistas e analistas que respondem ao Boletim Focus, do Banco Central (BC), veio depois de importante discurso feito pelo presidente do BC, Alexandre Tombini, no Senado, indicando que pode adotar novas medidas macroprudenciais, mas que os juros não devem subir além do encontro do Comitê de Política Monetária (Copom) de abril.
Os especialistas que participam do boletim Focus ampliaram a descrença na capacidade de o BC trazer a inflação para a meta nos próximos dois anos. As projeções para o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) deste ano pularam de 5,88% para 6%, enquanto as estimativas para 2012 passaram de 4,8% para 4,91%.
Parte do ajuste se deve também aos números do IPCA-15 da semana passada, que surpreendeu em alta (0,6%), principalmente pela inflação de serviços. Os analistas revisaram para cima as previsões para o índice cheio de março, de 0,52% para 0,62%, e de abril, de 0,48% para 0,53%. Seguindo as projeções de mercado, a inflação acumulada em 12 meses deve romper o teto da meta de inflação (6,5%) em julho e atingir 7% em agosto. Só então começaria a recuar.
O BC, como disse Tombini aos senadores, também acredita em uma piora da inflação acumulada até o fim do terceiro trimestre, devido a um efeito estatístico (inflação praticamente zerada entre junho e agosto do ano passado), além da inércia decorrente do choque de commodities. Mas para o BC a inflação em bases mensais já deve mostrar números mais comportados no segundo trimestre, na casa dos 0,4% ao mês.
A fala do presidente do BC convenceu os especialistas de que a autoridade monetária não vai elevar os juros além da alta de meio ponto esperada para a reunião de abril. A mediana das expectativas do boletim dessa semana aponta redução da Selic esperada para o fim do ano, de 12,5% para 12,25% ao ano. Antes, o mercado apostava em outra elevação dos juros em junho, de 0,25 ponto percentual.
Tombini conseguiu ainda convencer os analistas de que parte do aperto monetário será feito com novas medidas macroprudenciais, mas os especialistas estão reticentes quanto à efetividade dessa política. Nem mesmo o BC sabe exatamente o impacto das medidas macroprudenciais. As projeções da autoridade monetária já incorporam os efeitos da alta do recolhimento compulsório determinado em dezembro do ano passado, mas as decisões de restrição ao crédito com aumento do requerimento de capital ainda estão fora dos modelos macroeconométricos da autoridade monetária.
Os economistas também não acreditam que será possível manter o nível de avanço da economia, como quer a presidente Dilma Rousseff. As previsões para o PIB deste ano recuaram de 4,03% para 4%, quinta redução consecutiva, e para 2012, de 4,4% para 4,3%.
Tombini tem se esforçado para passar o recado de que o combate à inflação, dado o cenário atípico do pós-crise e o choque de commodities, requer tranquilidade e sangue-frio. Em discurso na cerimônia de entrega do diploma Qualidade em Bancos, sexta-feira, em São Paulo, ele disse que o choque de ofertas foi muito intenso e por isso pode ser necessário tempo maior para o recuo das expectativas, já sinalizando que a convergência da inflação para o centro da meta (4,5%) pode não vir neste ano. "Quanto mais intenso e duradouro for o choque, maior o tempo necessário para que o processo de ajustamento das expectativas esteja completo."
Tombini também tem feito encontros reservados, como foi o caso do café da manhã com senadores dias antes da audiência pública na Comissão de Assuntos Econômicos (CAE) do Senado e o jantar com banqueiros e empresários em São Paulo, na semana passada.
Na visão do mercado, a situação da dinâmica inflacionária é "preocupante", com expectativa de mais inflação e menos crescimento, como afirma o banco Santander. "O Focus mostra um cenário bastante difícil para este e o próximo ano, demonstrando que o mercado não acredita que o ajuste de política monetária sinalizado até o momento seja suficiente para trazer a inflação à meta", diz o banco, em relatório.
O boletim Focus também deixa claro, continua a equipe econômica do Santander, que o mercado não vê um cenário com mais inflação resultar em maior crescimento. "A elevação da Selic em 0,50 ponto percentual na próxima reunião não será eficiente em reduzir a inflação, o que levará a autoridade monetária a uma ação mais forte no final de 2011, elevando a taxa básica em 0,75 ponto percentual na última reunião do ano (novembro)."
Amanhã, o BC divulga o Relatório de Inflação referente aos primeiros três meses do ano.