Título: Expectativas do mercado contribuem pouco para IPCA
Autor: Travaglini, Fernando
Fonte: Valor Econômico, 31/03/2011, Brasil, p. A3

De Brasília As expectativas de inflação dos agentes do mercado têm contribuído pouco para o IPCA, o índice de preços do regime de metas. No ano passado, quando o IPCA chegou a 5,91%, as expectativas sofreram forte deterioração, mas tiveram impacto reduzido na inflação - de apenas 0,21 ponto percentual ou 3,6% do índice. O efeito foi limitado também e até negativo nos anos anteriores, com exceção de 2003, quando respondeu por 18,3% do IPCA.

As informações constam de um dos boxes do Relatório de Inflação (RI), divulgado ontem pelo Banco Central (BC). O documento mostra, por sua vez, que a inflação de preços livres e o choque de oferta ocorrido em 2010 contribuíram, respectivamente, com 2,95 (49,9% do total) e 1,97 pontos percentuais (33,3%) do IPCA.

As explicações justificam a postura do BC na condução da política de juros no ano passado, quando foi bastante criticado por setores do mercado, e sinalizam a atuação futura. As expectativas de inflação do mercado, captadas semanalmente pelo Boletim Focus, seguem se deteriorando - o mercado está prevendo IPCA de 6% para este ano, diante de 5,6% projetados pelo BC.

Os técnicos do Banco Central esclarecem que, ao fazer a decomposição para verificar a contribuição dos diversos fatores para a inflação, recorrem a estimativas por aproximações "baseadas em modelos e [que] estão, portanto, sujeitas a incertezas inerentes ao processo de modelagem". Na decomposição do IPCA de 2010, eles incluíram uma novidade - o choque de oferta como um dos fatores.

Em 2010, diz o Banco Central, os preços das commodities subiram de forma significativa, "em decorrência, ao menos em parte, de choques de oferta", tendo forte impacto nos preços ao consumidor. Por causa disso, a inflação de preços livres terminou o ano em 7,08% e a de preços administrados (tarifas públicas, aluguel etc), em 3,13%.

Os dados mostram que em quatro dos últimos seis anos (2004, 2007, 2008, 2010), o componente "choque de oferta" explicou mais de 25% da inflação e quase 50% em alguns momentos. No último ano, contribuiu com aproximadamente um terço do IPCA. Diante desse quadro, o BC diz que a teoria recomenda, e isso estaria presente na experiência internacional, que a política monetária acomode os chamados efeitos de primeira ordem do choque de oferta e se mantenha "vigilante" para evitar sua propagação (efeitos de segunda ordem).

Em outras palavras, o que o BC está dizendo é que, face a um choque de oferta como o do segundo semestre do ano passado, não adianta elevar a taxa de juros num primeiro momento. Só se deve fazer isso, e se fizer, no momento seguinte, se os aumentos de preços dos produtos afetados pelo choque de oferta se generalizarem na economia.

Em outro boxe, o BC chama a atenção para o fato de que, nos últimos seis anos (entre março de 2004 e fevereiro de 2011), os preços dos serviços subiram acima da variação anual média da inflação - 6,45%, face a 5,32%. Os preços relativos dos serviços aumentaram 9,63% em relação aos demais segmentos do IPCA. Em janeiro e fevereiro, responderam por 46,8% da inflação.