Título: Na festa para Lula, só se falou na ajuda a Portugal
Autor: Moreira, Assis
Fonte: Valor Econômico, 31/03/2011, Brasil, p. A5

De Coimbra

A crise financeira de Portugal e uma eventual ajuda brasileira ao país focalizaram as atenções ontem, na Universidade de Coimbra, à margem da cerimônia de entrega do título de doutor "honoris causa" para o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Autoridades portuguesas davam sinais de exasperação com perguntas sobre uma possível assistência financeira do Brasil, enquanto a agência de classificação de risco Fitch ameaçava rebaixar de novo o "rating" de Portugal por dificuldades em honrar seus compromissos financeiras.

O suposto socorro brasileiro acabou não sendo discutido formalmente entre os dois governos, devido ao retorno antecipado da presidente Dilma Rousseff ao Brasil. Mas uma nova entrevista de Dilma, respondida por escrito a um jornal de Lisboa, reiterava que o Brasil podia comprar dívida soberana portuguesa, e avançava a alternativa de recompra antecipada de títulos brasileiros em posse do governo português.

O primeiro-ministro demissionário, José Sócrates, sob uma mistura de aplausos e vaias de estudantes, não aguentou mais quando ouviu de novo uma pergunta sobre o assunto. "Não tem questão de ajudar ou não. O que temos que ver é a relação histórica, não uma situação conjuntural de Portugal", disse - e partiu. Já o presidente português Cavaco Silva fez de conta que não ouviu as questões. Pouco antes, Sócrates já parecia sem paciência com questões sobre a crise portuguesa, sussurrou para um assessor: "Não bastassem os portugueses, agora são os brasileiros também insistindo nisso?"

O suposto socorro brasileiro a Portugal irrita alguns, de um lado, pelo simbolismo do gesto. E segundo, porque não veem nada substancial a ser feito. Portugal necessita de financiamento de ¿ 21 bilhões entre abril e dezembro. Para se ter uma ideia, a China, com US$ 3 trilhões de reservas internacionais, comprou apenas US$ 300 milhões de dívida pública portuguesa. Uma compra pelo Brasil seria menor ainda, sem peso na situação portuguesa.

Além disso, nos meios financeiros foi recebida com surpresa a declaração da presidente Dilma sobre compra antecipada de papéis brasileiros em mãos do governo português. Isso porque Portugal, como o Brasil, comprava basicamente títulos públicos de triplo A, ou seja, os mais garantidos, o que não é ainda o caso do brasileiro. "Seria uma surpresa saber que Portugal tem título público brasileiro", comentou um banqueiro.

Sobre injeção de capital brasileiro em empresas portuguesas, também há um ceticismo. A saída "brutal" da Petrobras da negociação para comprar parte da Galp é citada como exemplo.

A manhã na Universidade de Coimbra foi tumultuada. Lula chegou sob fortes aplausos e gritos de "orgulho de ser brasileiro" de estudantes brasileiros. Mas a segurança portuguesa mostrou-se brutal, agredindo um cinegrafista do SBT e ameaçando a repórter. Lula agradeceu o título fazendo um discurso de auto-elogio, destacando que nos últimos oito anos, que coincidem com seu governo, "o Brasil realizou, de modo pacífico e democrático, uma verdadeira revolução econômica e social". Mencionou vários projetos que realizou e reiterou que fez uma política externa "ativa e altiva".

Na saída tumultuada, a presidente Dilma entrou no carro e ficou esperando dentro, cercada de seguranças, por pelo menos dez minutos até Lula aparecer, entrar no outro carro e os dois seguirem para o aeroporto, de volta ao Brasil para o funeral do ex-vice-presidente José Alencar.