Título: Lula estreia em palestras internacionais
Autor: Ribeiro, Alex
Fonte: Valor Econômico, 07/04/2011, Política, p. A10
De Washington Na estreia como palestrante internacional, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva recebeu tratamento de ex-chefe de Estado, com hospedagem na casa do embaixador brasileiro em Washington e forte esquema de segurança. Lula tomou o cuidado de ler um discurso previamente redigido, mas num momento de improviso disse que no passado os brasileiros eram confundidos com traficantes nas viagens ao exterior.
Depois do evento, falando com a imprensa, disse que o ex-presidente da Vale Roger Agnelli não é insubstituível, negou que já tenha chamado o dirigente líbio Muamar Gadafi de amigo e minimizou a importância do relatório recente da Polícia Federal que diz que houve um esquema de mensalão com recursos públicos.
"Quinze anos atrás, qualquer brasileiro tinha vergonha de mostrar o passaporte porque nos aeroportos do mundo inteiro as pessoas achavam que era traficante de drogas", disse a cerca de 200 pessoas num evento patrocinado pela Microsoft. "Hoje não temos vergonha, acabamos com nosso complexo de vira-lata."
Lula chegou ao evento, promovido num hotel a poucas quadras da Casa Branca, acompanhado por uma pequena multidão de seguranças, assessores, tradutor e fotógrafo vindos do Brasil, o embaixador em Washington, Mauro Vieira, e o governador do Rio, Sérgio Cabral, com respectivos auxiliares. Ele posou para algumas fotos na recepção do hotel e abraçou uma brasileira que se emocionou ao encontrá-lo calçada.
A recepção pelo embaixador faz parte das prerrogativas de ex-presidentes, mesmo quando são pagos para dar palestras no exterior, caso do evento da Microsoft. Depois de Washington, Lula dará palestra no México e, mais adiante, em Londres.
Lendo um texto de nove páginas, Lula relembrou que, filho de analfabetos, foi o primeiro de uma família de oito irmãos a completar o ensino técnico. Ele passou em revista a política de educação do seu governo e fechou o discurso com lições que diz ter aprendido no poder. "Governante que não sonha não transmite esperança", disse. "Governar é sobretudo uma relação de sentimento do governante com os governados."
Ao responder perguntas da plateia, manteve a cautela em assuntos internacionais, evitando fazer comentários mais diretos, por exemplo, sobre o regime de Hugo Chávez na Venezuela. Mas alfinetou os países desenvolvidos. "O Banco Mundial e o FMI sabiam a solução para a América Latina, mas quando acontece na Europa eles não sabem."
Seguranças americanos tentaram evitar a aproximação de jornalistas, mas Lula aceitou responder a três perguntas. "Ninguém é imprescindível nem substituível, e tive a oportunidade de dizer isso ao amigo Roger há uns 10 dias atrás", afirmou, sobre a troca de comando na Vale. "A alternância de poder vale na política e na vida empresarial."
Lula disse que, como presidente, teve divergências com Agnelli porque exigiu mais investimentos no Brasil, e afirmou não estar preocupado com a reação negativa do mercado. "Eu não pedi ao mercado para ser eleito", disse. "Tem título de eleitor, o mercado?"
Lula também minimizou o alcance do relatório recente da PF sobre o mensalão. "Não tem relatório final", afirmou. "Tem uma peça que dizem que foi o relatório produzido pela PF, não se sabe se o ministro [do STF] Joaquim [Barbosa] vai receber ou não, se aquilo vai entrar nos autos do processo." Se o relatório for incorporado, disse, todos os advogados de defesa vão pedir prazo e o julgamento ocorre em 2050.
O ex-presidente também negou que tenha dito, em visita à Líbia, que Gadafi é "companheiro e amigo". "Não fale uma sandice dessa", afirmou. "Eu jamais falaria isso por uma razão muito simples: tenho discordância política e ideológica."