Título: Alta de 0,25 ponto da Selic no radar
Autor: Bittencourt, Angela; Pinto, Lucinda
Fonte: Valor Econômico, 14/04/2011, Finanças, p. C1

De São Paulo O mercado contempla em seu cenário a possibilidade de um movimento inédito do Banco Central. No momento em que as expectativas de inflação têm mostrado expressiva piora, parte dos analistas projeta desaceleração no ritmo do aperto monetário. De 31 instituições consultadas pelo Valor, oito acreditam que o Comitê de Política Monetária (Copom) elevará a taxa Selic em apenas 0,25 ponto percentual na semana que vem, sendo que nesse grupo estão as maiores instituições financeiras do país.

Octávio de Barros, diretor de Pesquisas e Estudos Econômicos do Bradesco, e Ilan Goldfajn, economista-chefe do Itaú Unibanco, trabalham com perspectiva de desaceleração do ciclo, com mais dois ajustes de 0,25 ponto percentual da Selic. Mas um elenco de 23 instituições acredita que o Copom repetirá a dose de março e aumentará a Selic em 0,50 ponto.

Essa divisão de opiniões está refletida também na curva de juros futuros. No fechamento do pregão da BM&F, ontem, os contratos mostravam 30% de probabilidade de alta da Selic em 0,25 ponto e 70% de 0,50 ponto.

A divisão de opiniões decorre de dúvidas a respeito de qual política monetária o BC persegue. De um lado, o BC tem dado indícios de que fará tudo o que for necessário para combater a inflação corrente e domar as expectativas, usando mais juro se for preciso; de outro, o que se vê é a disposição do governo de continuar usando medidas macroprudenciais para conter a demanda, o crédito e, assim, amenizar as pressões inflacionárias.

A nova postura do BC e do Ministério da Fazenda, portanto, conseguiu minar a convicção do mercado de que o uso intensivo da taxa de juro garante boa gestão da política monetária. Mas isso está longe de representar um voto de confiança no poder da autoridade monetária controlar a inflação, promovendo sua convergência para o centro da meta tempestivamente ou a toque de caixa. Tanto é que a pesquisa Focus vem mostrando rodadas preocupantes de aumentos das projeções de inflação. A mediana do mercado aponta IPCA de 6,26% ao final de 2011 e 5% ao final de 2012.

Nem todos os analistas desprezam, porém, o cenário alternativo do BC para 2012 onde se vê inflação ligeiramente abaixo da meta. O cenário alternativo contempla juro de mercado e a taxa de câmbio vigente antes do último encontro do colegiado. As projeções de juros tiveram pouca alteração de lá para cá. Mas a taxa de câmbio e suas projeções apreciaram consideravelmente, reforçando a percepção de que o dólar frágil é um elemento adicional na política de controle da inflação.

Marcelo Carvalho, do BNP Paribas, está no grupo que espera aumento de 0,25 ponto agora, com interrupção do ciclo em junho e retomada da alta em julho. Marianna Costa, da Link Investimentos, tem visão parecida. Conta com 0,25 ponto na semana que vem, mas com chance de alta no final deste ano ou início de 2012. "Trabalhamos com esse ajuste considerando a ata do Copom e o Relatório de Inflação, além das indicações de que o BC parece mais inclinado a interromper o ciclo e observar o resultado do que foi feito."

André Perfeito, economista-chefe da Gradual Investimentos, também vê a próxima Selic a 12% seguida de estabilidade por entender que o BC, a Fazenda e o Palácio do Planalto estão sinalizando exaustivamente que a Selic não deve ser esticada. Para Perfeito, o BC em particular tem sido muito claro em destacar a importância das medidas macroprudenciais. Ele concorda que as pressões inflacionárias seguem elevadas, mas pondera que o último aumento do IOF para pessoas físicas foi forte, que a alta do compulsório no fim do ano levou à alta das taxas cobradas dos tomadores e que já existem sinais da acomodação da atividade.

Luis Otávio de Souza Leal, economista-chefe do Banco ABC Brasil, está entre a maioria que projeta alta de 0,50 ponto percentual da Selic. Ele considera estranho uma desaceleração do ajuste da Selic num momento em que a inflação não dá trégua. E explica que a inflação deve fechar abril em patamar bem próximo do 0,80% visto em janeiro, fevereiro e março. "Não dá para desprezar a insistência do governo em dizer que não vai permitir a alta da inflação. Desacelerar a alta estaria fora do contexto de um discurso governamental uníssono. Trabalho com perspectiva de 12,25% por considerar o cenário alternativo indicado pelo BC. Essa taxa combinada a câmbio a R$ 1,65 levaria, segundo o BC, a inflação a 4,40% em 2012. Nas últimas semanas, o real se apreciou ainda mais. Portanto, cabe na conta", afirma Leal que alerta, porém, que a inflação estará no patamar de 7% em setembro, quando petroleiros, bancários e metalúrgicos negociam dissídios.

Sérgio Vale, economista-chefe da MB Associados, também trabalha com alta de 0,50 ponto e manutenção. Mas entende que o governo provavelmente tentará todo tipo de medidas macroprudenciais, que, avalia, não devem funcionar. Portanto, em algum momento em 2012.

Roberto Padovani, estrategista-chefe do WestLB para a América Latina, também vê Selic a 12,25% por um longo período, mas alerta que essa hipótese considera uma correção de preços internacionais das commodities com a perspectiva de mudança da política monetária nos EUA. Caso os preços internacionais sejam mantidos, Padovani imagina um novo ciclo de alta a partir de julho.

Newton Rosa, economista-chefe da Sul América Investimentos, e Maristella Ansanelli, economista-chefe do Banco Fibra, também compõem a corrente do 0,50 ponto. Rosa contempla a possibilidade, inclusive, da Selic a 12,25% permanecer inalterada até dezembro de 2012 com a adoção de novas medidas macroprudenciais. Thaís Zara, economista-chefe da Rosenberg & Associados, vê alta de 0,50 ponto na quarta-feira e taxa mantida até dezembro. Por ora, não considera retomada do ciclo de alta. Mas pondera que o risco existe e é elevado. Dependerá de novas possíveis medidas macroprudenciais e quão fortes elas serão.