Título: FMI alerta para risco da expansão do crédito no país
Autor: Ribeiro, Alex
Fonte: Valor Econômico, 14/04/2011, Finanças, p. C3
De Washington O Fundo Monetário Internacional (FMI) alertou o Brasil para os riscos da forte expansão de crédito, da retomada da alavancagem das empresas e da crescente dependência dos bancos de captações externas para financiar os seus empréstimos. Ainda não há desequilíbrios nem excessos, mas será necessária vigilância e ações de política econômicas para apertar o crédito, afirma o Relatório de Estabilidade Financeira Mundial, divulgado ontem.
Segundo o FMI, as empresas brasileiras voltaram a se endividar, em grande parte com recursos captados no exterior, revertendo um recuo ocorrido durante a crise financeira recente. Entre 2005 e 2008, a relação entre dívidas e capital acionário das empresas cresceu cerca de 65%. Na crise, reverteu mais ou menos um terço desse aumento. De 2009 para cá, voltou a crescer mais uma vez, mas de forma menos acelerada.
Empresas com maior risco de crédito, afirma o FMI, passaram a ter acesso ao mercado internacional. Elas estão mais vulneráveis a ficar sem acesso ao mercado de crédito para rolar suas dívidas caso haja uma redução dos fluxos de capitais aos países emergentes.
Para o FMI, o risco mais importante é o rápido aumento do crédito bancário. Nos últimos anos, a expansão da carteira de crédito dos bancos vem ocorrendo num ritmo mais rápido do que o crescimento da economia. É algo que faz parte do desenvolvimento econômico do país, reconhece o organismo, mas é necessário acompanhar de perto para evitar a deterioração das carteiras.
"Grandes bancos, especialmente bancos estatais, são os principais responsáveis pelo agudo aumento de crédito", afirma o relatório.
Segundo o organismo, alguns dos maiores bancos brasileiros expandiram seus balanços em mais de 100% entre 2007 e 2010, atingindo tamanhos comparáveis aos de grandes bancos dos Estados Unidos e Europa.
No relatório, o Fundo Monetário ecoa algumas das preocupações que já vem sendo levantadas pelo Banco Central. O presidente da instituição, Alexandre Tombini, declarou há algumas semanas que já está agindo para fazer com que a expansão de crédito caia para cerca de 15% ao ano. O governo aumentou o compulsório dos bancos e elevou também impostos sobre empréstimos, entre outras medidas.
O diretor do departamento monetário e de mercados de capitais do FMI, José Viñals, disse que será necessário esperar para ver se as medidas serão suficientes. "Será suficiente quando virmos a taxa de crescimento do crédito moderando", disse, durante a apresentação do relatório.
A expansão de crédito está sendo acompanhanda de uma mudança na estrutura de captação dos bancos. A relação entre empréstimos e depósitos vem subindo desde meados dessa década e, hoje, está na casa de 1,8.
Em países desenvolvidos, essa relação é inferior a 1. Quando maior o percentual, menos os bancos estão usando captações de depósitos para lastrear a expansão das suas operações de crédito. Os depósitos, principalmente no varejo, são a forma mais estável de captação.
De forma crescente, afirma o FMI, os bancos estão se valendo do mercado de capitais para sustentar o avanço de suas operações de crédito. "Os mercados emergentes emitiram um recorde de US$ 110 bilhões e dívidas denominadas em dólares em 2010, liderados por bancos da Rússia, Coreia e Brasil", afirma o relatório.
A boa notícia é que grandes bancos estão ampliando o prazo de suas captações. "Entretanto, as captações em 2010 viram uma série de novos nomes, notadamente bancos pequenos e médios do Brasil, Peru e Chile", afirma o FMI. "A dependência do mercado internacional de atacado levanta questões sobre a capacidade de alguns dos bancos menores de obterem refinanciamento em condições mais restritivas."