Título: Elevar imposto sobre mineradoras no Peru une Keiko e Humala
Autor: Souza, Marcos de Moura e
Fonte: Valor Econômico, 12/04/2011, Internacional, p. A13

De São Paulo Os dois candidatos mais votados no primeiro turno das eleições de domingo para a Presidência do Peru têm pouco em comum. Ollanta Humala é um ex-militar com discurso nacionalista e ligado a setores de esquerda. Keiko Fujimori, filha do ex-presidente Alberto Fujimori, é uma popular deputada conservadora. Ambos, no entanto, defendem uma revisão na política de impostos sobre as mineradoras. Querem que as empresas paguem uma fatia maior para que o Estado possa financiar mais políticas sociais. A mudança afetaria os negócios da Vale e da Votorantim.

Com 85% dos votos apurados, Humala tinha ontem 31,2% dos votos, e Keiko, 23,2%. Ele enfrenta grande resistência entre o empresariado e investidores e sua eventual vitória no segundo turno, em 5 de junho, é vista com preocupação por muitas empresas brasileiras que operam no Peru.

Além de defender a criação de um novo imposto para as mineradoras que incidiria sobre o lucro das empresas sempre que os preços internacionais dos metais atingissem determinado patamar, Humala, de 48 anos, fala em reformar a Constituição, em rever as condições de exportação de gás natural, em estatização e em controle da mídia.

Embora procure se afastar do modelo socialista de Hugo Chávez, críticos dizem que ele adotaria uma linha semelhante à do presidente venezuelano e que poria em risco um modelo econômico que fez a economia peruana crescer em ritmo acelerado na última década. Em 2010, o avanço do Produto Interno Bruto foi de 9%. Humala tenta colar sua imagem na do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e tem dois integrantes do PT entre seus assessores de campanha.

"As empresas acompanham a situação com muita prudência e muita cautela", disse ontem Manuel Vega Alvear, presidente da Câmara de Comércio Peru-Brasil, de Lima. A entidade reúne 160 companhias. A percepção, diz Alvear, é que há uma distância entre o que Humala tem pregado - ele que passou a moderar o tom esquerdista de seus discursos - e o que está em seu programa de governo. A resistência a ele perdurará, segundo Alvear, "enquanto não esclarecer que não pretende mudar o modelo econômico no país".

Ontem, o descontentamento dos investidores em relação à vantagem de Humala se refletiu no mercado de ações. A bolsa de Lima fechou em queda de 3,1% (a maior em três semanas) e a moeda perdeu 0,1% em relação ao dólar.

Keiko, de 35 anos, está mais alinhada aos interesses empresariais e dos mercados. Promete manter o país crescendo a taxas de 7%, reduzir os custos para as empresas, diminuir a burocracia e facilitar investimentos. Mas, assim como Humala, defende sobretaxar as mineradoras em momentos de alta de preços dos minérios. Procuradas pela reportagem, Vale e Votorantim, que têm operações no Peru, não comentaram o assunto.

O modelo vigora na Venezuela, Equador, Chile, Israel, Austrália. E é uma ideia que ganha voto no Peru - país que apesar do crescer de forma acelerada têm cerca de um terço da população na pobreza, 45% da força de trabalho na informalidade e 70% da população fora dos sistemas de aposentadoria. O atual presidente Alan García ganhou as eleições de 2006 prometendo taxar mais as mineradoras, mas acabou engavetando a ideia.

"Em 2002 e 2003, o governo Alejandro Toledo construiu um acordo nacional que, entre outros pontos previa um aumento da carga fiscal no país dos atuais 15% do PIB para 18%", diz o economista Humberto Campodónico Sánchez. A ideia não avançou. "Agora, parece ser o momento de voltar a esse consenso nacional."