Título: Divisão do 1º de Maio reproduz disputa de centrais por R$ 102 milhões
Autor: Agostine , Cristiane
Fonte: Valor Econômico, 29/04/2011, Política, p. A6

De um lado, a CUT. Do outro, Força Sindical, CTB, UGT, CGTB e NCST. A divisão das centrais na defesa do imposto sindical é replicada na comemoração do 1º de Maio deste ano. As festas do dia do trabalhador refletem a disputa das entidades pelos R$ 102 milhões arrecadados com o tributo.

Pela primeira vez, as cinco centrais que defendem a cobrança compulsória dos trabalhadores se uniram para as comemorações do 1º de Maio, em uma festa que deve reunir um milhão de pessoas na Barra Funda, bairro da zona oeste de São Paulo. A CUT, que luta pelo fim do imposto sindical, optou por não participar do evento unificado. Fará uma festa mais modesta, para cerca de 30 mil pessoas, no Vale do Anhangabaú, no centro da capital paulista. As centrais anunciam, nas duas festas, a presença da presidente Dilma Rousseff, informação não confirmada pela Presidência. O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva informou, por meio de sua assessoria, que não participará das comemorações.

O presidente da CUT, Artur Henrique Santos, diz que a extinção do imposto sindical será "o primeiro tema" do discurso que fará na festa da central, no domingo: "É uma das nossas principais bandeiras", afirma. "Queremos acabar com o imposto sindical obrigatório e instituir uma contribuição voluntária, com um valor que será definido pelos trabalhadores em assembleia".

Já as centrais Força Sindical, CTB, UGT, CGTB e NCST pretendem deixar o tema longe da festa do dia do trabalhador. "Não vamos falar sobre o imposto", comenta o secretário-geral da Força Sindical, João Carlos Gonçalves, o Juruna. "Os sindicatos usam o imposto para mobilizar os trabalhadores", defende o dirigente. O presidente da UGT, Ricardo Patah, reforça a defesa da manutenção do imposto e diz que sua extinção enfraqueceria os sindicatos.

Para o presidente da CTB, Wagner Gomes, "não tem sentido" discutir sobre a principal fonte de financiamento das entidades sindicais na festa dos trabalhadores. "Defendemos a manutenção da cobrança. Quem tem que sustentar os sindicatos são os trabalhadores, não os patrões. Sem o imposto não temos como nos sustentar", afirma Gomes.

Ao transformar o fim do imposto sindical em bandeira, a CUT tenta atingir outras centrais, com quem divide os R$ 102 milhões. A entidade quer desidratar entidades que vivem dos chamados sindicatos "de gaveta", com pouca representatividade. "Quando as centrais foram reconhecidas, o acordo que fizemos com o governo é que acabaríamos com o imposto. Só queremos cumprir esse acordo", diz o presidente da CUT.

O imposto sindical corresponde ao desconto de um dia de trabalho dos cerca de 43 milhões trabalhadores com carteira assinada. As centrais ficam com 10% do montante. O fim do imposto sindical faz parte de um acordo selado em 2008 por Lula com as centrais, quando as entidades foram reconhecidas. Na negociação com os sindicalistas, ficou acertado que a contribuição compulsória seria substituída por uma contribuição negociada em assembleias promovidas pelos sindicatos.

Apesar de mostrar-se contra o imposto sindical, a CUT foi a que mais recebeu recursos do tributo no ano passado. Foram R$ 31,9 milhões. A Força, segunda maior central do país, recebeu R$ 28,9 milhões. "O discurso da CUT é um, mas a prática é outra. Se eles fossem contra, de verdade, devolveriam o dinheiro", opina Wagner Gomes, da CTB. Juruna, da Força, reforça a crítica. "É retórica", diz. O presidente da CUT rebate: "O que vamos fazer? Deixar o dinheiro para as outras centrais? Elas descumprem o acordo. Nós só queremos cumprir aquilo que foi assinado", afirma.

A divisão das centrais na festa do 1º de Maio é um novo sinal de que as entidades não deverão caminhar juntas, apesar de as seis terem se unido em apoio à petista Dilma Rousseff, na campanha presidencial de 2010. O primeiro desentendimento se deu durante a definição do valor do salário mínimo, fixado em R$ 545. As entidades queriam R$ 560. "Todas as centrais combinaram um valor a ser defendido, mas a CUT não cumpriu com o combinado", reclama Gomes.

Durante ao debate do mínimo, o principal desgaste foi da Força com a CUT, com o PT e com o governo federal. As duas centrais se enfrentaram também na divisão por espaço no governo federal. As comemorações do 1º de Maio reforçam a divergência. "É um erro a CUT querer fazer carreira solo. Vai contra a corrente geral. Em todo o mundo, as centrais e os sindicatos estão se unindo", aponta Juruna.

O presidente da CUT comenta que não foi só por conta da divergência sobre o imposto sindical que a central optou por fazer uma festa do 1º de Maio à parte. O dirigente critica o sorteio de 20 carros zero quilômetro, que será feito pelas cinco centrais na festa unificada. "É o momento de chamar a atenção da sociedade para temas da agenda do trabalhador, não de sortear carros", diz. "Queremos fazer uma reflexão sobre a relação do Brasil com a África e a unidade dos trabalhadores."

As seis maiores centrais do país, no entanto, terão uma pauta comum no 1º de Maio. A maior parte dos temas que serão defendidos pelas seis entidades foi negociada no ano passado, na Conferência Nacional da Classe Trabalhadora. As centrais defenderão redução da jornada de trabalho para 40 horas semanais, fim do fator previdenciário, regulamentação da terceirização, qualificação profissional, reformas agrária e tributária e redução da taxa de juros.