Título: Copom aposta na estratégia gradualista e prolongada
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Fonte: Valor Econômico, 29/04/2011, Opinião, p. A25
A opção do governo por uma estratégia gradual de combate à inflação ficou mais uma vez evidenciada na ata da reunião do Comitê de Política Monetária (Copom), realizada na semana passada, quando a taxa básica de juro (Selic) foi elevada em 0,25 ponto, para 12% ao ano. Não foi uma decisão unânime: dois membros do Copom preferiam um aumento de 0,50 ponto, como havia ocorrido nas duas reuniões anteriores deste ano.
O Copom sabe que um tratamento gradual, que permite uma sintonia mais fina na dosagem do remédio, tem o preço de prolongar o tempo de correção de rota. O tratamento prolongado da inflação em uma economia com o histórico da brasileira tem o risco de abrir espaço para recidiva da reindexação de preços.
Mas o Copom resolveu assumir esse risco e deixou bem clara a opção. "O Copom entende, de forma unânime, que diante das incertezas quanto ao grau de persistência das pressões inflacionárias recentes, e da complexidade que envolve hoje o ambiente internacional, o ajuste total da taxa básica de juros deve ser, a partir desta reunião, suficientemente prolongado", diz o parágrafo 30 da ata do Copom, ontem divulgada. Em outro trecho da ata, no parágrafo 32, a opção é novamente sublinhada: "Considerando o balanço de riscos para a inflação, o ritmo ainda incerto de moderação da atividade doméstica, bem como a complexidade que ora envolve o ambiente internacional, o Comitê entende que, neste momento, a implementação de ajustes das condições monetárias por um período suficientemente prolongado é a estratégia mais adequada para garantir a convergência da inflação para a meta em 2012".
A inflação claramente escapou da trajetória desejada, desde a reunião anterior, realizada no início de março. O IPCA do mês passado ficou em 0,79%, próximo do 0,80% de fevereiro, acumulando 6,30% em doze meses, traçando uma rota ascendente depois dos 6,01% de fevereiro e dos 5,99% de janeiro. O Copom reconheceu o forte impacto da elevação dos serviços, além das commodities. De acordo com a ata, a inflação no setor de serviços acumula 8,53% nos doze meses terminados em março, a maior variação desde agosto de 1997.
Pior do que isso, o Copom sabe que o cenário prospectivo para a inflação "não evoluiu favoravelmente" desde a última reunião. Choques de oferta internos e externos e a concentração de reajustes de preços administrados, que contaminaram os números do início do ano, tendem agora a influenciar em cadeia os preços ao consumidor, inclusive por meio da inércia. Há ainda incógnitas a enfrentar como o descompasso entre a oferta e a demanda, a estreita margem de ociosidade da capacidade instalada e a pressão sobre os salários, sem falar no cenário internacional, que continua bastante incerto.
O Copom prevê dois momentos distintos na trajetória da inflação ao longo deste ano. No primeiro momento, entre agora e o terceiro trimestre, a inflação acumulada em doze meses tende a permanecer no patamar atual ou acima dele, basicamente por causa da inércia, batendo nos 6,5% do teto da meta. A partir do quarto trimestre, porém, a expectativa é que a inflação acumulada em doze meses passe a declinar, convergindo para os 4,5% do centro da meta, ao longo do próximo ano.
A estratégia gradualista de combate à inflação sustenta-se em cima de apostas não totalmente destituídas de risco. Uma delas é que "o esforço anti-inflacionário" já feito desde o fim do ano passado ainda está produzindo e produzirá efeitos porque há alguma defasagem nesse processo. A ata do Copom não explicita, mas certamente estão incluídas neste pacote as medidas macroprudenciais tomadas para deter o crédito, como o aumento do compulsório dos bancos e dos custos do crédito, na forma de IOF mais elevado. No entanto, como foi visto nos dados de crédito desta semana, são ainda muito tênues os sinais de desaceleração. O próprio Copom, como indica a ata, reduziu a ênfase nas medidas macroprudenciais e passou a contar mais com a eficiência do que chama de medidas convencionais de política monetária, ou seja, o manejo da taxa de juros.
Com o câmbio no atual patamar, aparentemente se esgotou sua contribuição para a contenção dos preços. Ainda resta a aposta na colaboração do ajuste fiscal. Os resultados recentes do governo central dão apoio a essa expectativa. Como está escrito na ata, "desde o início deste ano, importantes decisões foram tomadas e executadas, e reforçam a visão de que está em curso um processo de consolidação fiscal".