Título: Fluxo aumenta e câmbio volta à normalidade
Autor: Campos, Eduardo
Fonte: Valor Econômico, 04/05/2011, Finanças, p. C2

O mercado de câmbio parece voltar à normalidade depois das distorções que marcaram o fim do mês de abril, quando o preço à vista estava maior do que o futuro, o mercado de casado (pronto contra futuro) apresentava rolagem negativa e o cupom cambial (DDI - juros em dólar) disparava.

A percepção nas mesas é de que o fluxo de recursos externos, que secou no mês passado, ensaia recuperação.

Com isso, os contratos futuros retomaram o prêmio sobre o preço à vista, o mercado de casado tornou a funcionar e a taxa de cupom cambial, principalmente de curto prazo, ajusta para baixo.

Essa volta à racionalidade também tem implicações sobre o mercado de NDF (non-deliverable forward, contratos a termo de moeda sem entrega física). As curvas de curto prazo de NDF envolvendo a moeda brasileira voltam a apontar para cima. O NFD de um mês rondou os 4,5% depois de cair abaixo de 2% na semana passada.

Segundo um operador, era apenas uma questão de tempo para que os investidores se armassem para arbitrar essas distorções, trazendo, assim, o mercado de volta aos padrões históricos.

Estrangeiro reduz aposta de valorização do real

Outra observação nas mesas é que essas deformidades tinham afastado muitos agentes do mercado. Agora, com a situação aparentemente normalizada, esses investidores estão retomando as operações, o que melhora a liquidez e a formação de preço do câmbio.

No mercado à vista, o volume estimado para o interbancário beirou os US$ 2,5 bilhões, mostrando recuperação em comparação com a semana passada.

Já a formação de taxa no mercado à vista foi ditada mais por uma necessidade de ajuste, já que na segunda-feira, o dólar futuro passou por firme alta no fim do pregão, quando o mercado à vista já estava fechado.

No fim da jornada, o dólar comercial apontava alta de 0,82%, a R$ 1,589, maior preço em duas semanas.

No mercado futuro, o dólar para junho oscilou entre alta e baixa até marcar valorização de 0,18%, a R$ 1,596 antes do ajuste final.

Cabe lembrar que o contrato bateu na linha de R$ 1,60, forte ponto de resistência segundo as análises técnicas. Se o contrato for acima de R$ 1,6005 estaria configurado um viés de alta.

Hoje, o Banco Central (BC) apresenta o fluxo de abril e também releva o estoque vendido dos bancos no mercado à vista.

Cabe lembrar que até o dia 20, a sobra de dólares estava em apenas US$ 133 milhões. Só para ilustrar quanto o fluxo secou no mês passado, em período semelhante de março, a sobra de dólar estava em US$ 11,73 bilhões. Já a posição dos bancos, também até o dia 20 de abril, estava em US$ 13,25 bilhões, avançando de US$ 8,83 bilhões no fechamento de março.

Voltando o foco aos contratos em aberto na Bolsa de Mercadorias & Futuros (BM&F), o estrangeiro começou o mês de maio com firme zeragem de posição vendida, ou seja, diminuiu o tamanho de sua aposta na valorização do real.

No pregão de segunda-feira (último dado disponível), o não residente comprou 92.742 contratos de dólar futuro, equivalentes a US$ 4,63 bilhões.

Com isso, seu estoque vendido em contratos de dólar caiu praticamente pela metade, de US$ 10,185 bilhões para

US$ 5,54 bilhões.

Colocando na conta a posição em DDI, o estoque vendido ainda soma US$ 15,98 bilhões. Na segunda-feira, o não residente comprou dólar, mas vendeu US$ 3,04 bilhões em DDI. Por isso, sua posição global não se alterou tanto com relação ao fim de abril, quando o estoque dólar futuro mais DDI estava em US$ 17,57 bilhões. Vale lembrar que essa posição já esteve acima dos US$ 20 bilhões no dia 1º de abril, recorde histórico.

Todo o começo de mês é natural se observar firmes ajustes de posição na BM&F. Fica a dúvida, agora, se essa compra do estrangeiro foi algo pontual, ou se virá a ser uma tendência.

Como no mercado futuro o jogo é de soma zero, se tem alguém vendido, tem alguém comprado. E quem faz esse papel são os bancos, que na segunda-feira venderam US$ 3,05 bilhões em contratos de dólar futuro, mas ainda apresentavam estoque comprado de US$ 4,30 bilhões. Somando a posição em DDI, de US$ 7,96 bilhões, o estoque comprado dos bancos sobe a US$ 12,27 bilhões.

Outros agentes com posição relevante em dólar futuro são as outras pessoas jurídicas financeiras, compradas em US$ 5,13 bilhões, e o investidor institucional nacional, com US$ 2,711 bilhões vendidos em dólar futuro.

Além do fluxo cambial, o BC também apresenta o Índice de Commodities Brasil (IC-Br) de abril. E o IBGE traz o Índice de Preços ao Produtor - Indústrias de Transformação de março.

Eduardo Campos é repórter