Título: Empresas alongam prazos em US$ 7 bi de empréstimos externos
Autor: Lucchesi , Cristiane Perini
Fonte: Valor Econômico, 03/05/2011, Finanças, p. C8

Não é apenas nas linhas de curto prazo que o crédito internacional para o Brasil está farto. O mercado de empréstimos externos sindicalizados -com a participação de vários bancos- está cada vez mais favorável para as empresas brasileiras, que aproveitam o momento para alongar prazos e reduzir spreads. Os bancos americanos e asiáticos ganham mercado, pois têm custo de captação mais baixos do que os europeus, que continuam muito presentes, no entanto, nos financiamentos de projeto para o setor de petróleo, transações que exigem especialização. Hoje, segundo apurou o Valor, há aproximadamente US$ 7,22 bilhões em transações de empréstimos externos para empresas brasileiras no mercado. As companhias tentam atingir prazos de vencimento tão longos quanto dez anos nos pré-pagamentos à exportação, em comparação com os cinco anos, no máximo, que vinham sendo praticados após a crise de 2008.

"Com pouca demanda das empresas por transações grandes, o mercado está superlíquido e os bancos asiáticos estão bem agressivos", diz Samuel Canineu, vice-presidente para sindicalização nas Américas do ING. O banco está liderando, junto com o Santander, transação de US$ 850 milhões para a OSX para projeto de construção de unidades flutuantes de exploração, armazenamento e escoamento de petróleo (em inglês, Floating Production Storage and Offloading) - são navios utilizados em locais de produção distantes da costa, com inviabilidade de ligação por oleodutos.

Nessas transações de "project finance" no mercado externo, os bancos europeus conseguem sair na frente, pois têm maior conhecimento desse tipo de estrutura e possuem bom relacionamento com agências de crédito à exportação dos governos que podem entrar com seguros. Além disso, os europeus conseguem ficar com linhas disponíveis para uma mesma empresa pelo prazo de 12 anos ou até mais, o que é sempre necessário em um projeto de construção de navio de petróleo.

Nos empréstimos corporativos, como as linhas de pré-pagamento à exportação ou linhas de capital de giro ou crédito rotativo (empréstimo stand-by revolving), os bancos europeus estão cada vez mais desconfortáveis. "As empresas buscam poucos empréstimos no mercado internacional hoje e, diante da escassez de ativos, os bancos estão apertando demais a sua rentabilidade para conseguir participar das transações", diz Paulo César Souza, diretor comercial do Société Générale. "As empresas aproveitam e pedem spreads tão baixos e prazos tão elevados que a equação está ficando difícil de fechar e poucos empréstimos corporativos estão efetivamente saindo", conta o executivo.

Não é à toa que até agora somente uma transação de maior porte foi efetivamente fechada: a linha de crédito rotativo de US$ 3 bilhões para a Vale, que funciona como uma espécie de cheque especial. Se sacar uma parte da linha, de prazo de vencimento em cinco anos, a empresa vai pagar spread de 65 pontos básicos sobre a Libor, taxa interbancária de Londres, segundo o mercado, spread inferior ao pago pelos bancos no mesmo prazo. Se sacar tudo, vai pagar no máximo 95 pontos sobre a Libor, mesmo assim abaixo do custo de captação de bancos.

A transação da Fibria, empresa resultante da união da Aracruz com a Votorantim Celulose e Papel, de US$ 500 milhões, que está no mercado neste momento para ser fechada, também surpreende pelos prazos longos e prêmio de risco reduzidos. A companhia está captando um pré-pagamento à exportação com prazo de vencimento em oito anos e negociava spread de 225 pontos básicos. A Fibria, que pré-pagou US$ 600 milhões em crédito externo, está buscando ainda um crédito rotativo "stand-by" de US$ 300 milhões.

A Braskem está negociando um pré-pagamento que pode chegar nos dez anos e a Samarco está conseguindo prazos de sete a dez anos em sua transação, de pré-pagamento, de US$ 400 milhões, que tem sido muito disputada pelos bancos.

"Há muita liquidez para o Brasil na Ásia, entre os bancos e investidores, que querem entrar nas transações mais simples, mas também nos financiamentos de projeto", diz Mihailo Zlatkovic, responsável pela área de corporate banking do britânico Standard Chartered no Brasil. "Temos focado nossa atuação nesses bancos e investidores asiáticos que querem diversificar", completa Germana Cruz, responsável por instituições financeiras, cobertura de clientes e originação no Brasil do Standard Chartered.

"O custo de funding no Japão é próximo a zero e os bancos asiáticos têm se posicionado com maior força no mercado brasileiro", concorda Ernesto Meyer, coordenador de financiamentos para aquisição e operações sindicalizadas para a América Latina do BNP Paribas. Segundo ele, vários bancos europeus e mesmo americanos têm se posicionado para fornecer empréstimos para empresas de médio porte em busca de uma maior rentabilidade. As linhas para as empresas grandes são fornecidas em troca de relacionamento e oferta de outros produtos acoplados.

Nos financiamentos de projeto, no entanto, a redução nos spreads para as companhias não é tão pronunciado, visto que uma grande estruturação é exigida, o que permite que os bancos cobrem comissões mais elevadas. Além disso, há muitas transações ao mesmo tempo no mercado, cujos importantes acionistas nos projetos são a Petroserv, a Odebrecht, a Queiroz Galvão e até mesmo o Grupo Schahin.