Título: Bolsas caem e dólar sobe. Culpa da China?
Autor: Campos, Eduardo
Fonte: Valor Econômico, 12/05/2011, Finanças, p. C2

As bolsas, as commodities e as moedas emergentes tiveram um pregão de forte baixa na quarta-feira. Tudo culpa da China, segundo o discurso mais propalado ontem, que mostrou dados de atividade abaixo do previsto em abril e inflação ainda elevada.

No entanto, esse sinal de menor ritmo de crescimento não deveria ser surpresa. Afinal de contas, faz meses que o banco central chinês toma medidas para reduzir o ímpeto da atividade, subindo juros e taxa de depósito compulsório.

O que desagrada mesmo, segundo o superintendente de tesouraria do Banco Banif, Rodrigo Trotta, é o comportamento da inflação, que mostra resistência à queda. Em abril, o índice de preços ao consumidor subiu 5,3% no comparativo anual, ante previsão de 5,2% e variação de 5,4% em março.

Tal comportamento dos preços traz a ideia de que o BC terá de continuar tomando medidas restritivas, o que terá impacto, também, sobre o crescimento. "A ideia é de que o remédio terá de ser ainda mais vigoroso, pois a inflação não cede."

Dólar comercial sobe 0,93% e fecha o dia a R$ 1,620

No entanto, esse tipo de avaliação não é consensual. Há quem veja nessa redução da atividade um sinal de que as ações do BC chinês estão mostrando efeito. Tal percepção, aliada a esse movimento de baixa das commodities, pode indicar que o ciclo restritivo na China estaria chegando ao fim.

"Embora acreditemos que mais apertos monetários sejam prováveis, o fato de as medidas mostrarem o efeito desejado não deixa de ser um resultado positivo. Isso indica que o BC chinês está se aproximando do fim do ciclo de aperto", diz a equipe de analistas do Standard Bank em relatório.

A instituição também chama atenção para um fato bastante relevante: a taxa de juros real da China continua negativa. A taxa oficial é de 3,25%, contra a inflação de 5,3% em abril. Ou seja, é mais interessante consumir ou tomar risco do que poupar. Ampliando a análise, um estrategista que preferiu não se identificar enxerga nesses dados da China um padrão já delineado pelos números dos Estados Unidos, zona do euro e Reino Unido.

"Todos estão caminhando para um menor crescimento. O mercado está demorando, mas vai embarcar nessa aos poucos", disse.

Sendo esse o cenário, o especialista acredita que os BCs ao redor do mundo não vão parar de dar estímulos. "Isso pode impulsionar o preço dos ativos de risco pontualmente, mas a percepção é que estamos entrando em uma onda de incerteza e de reavaliação no preço dos ativos. Vai ficando mais claro que o preço do petróleo está atrapalhando a retomada", explica, lembrando que energia cara consome renda disponível e tira força dos saldos comerciais em função do aumento nos custos de importação.

Para o sócio da consultoria Global Financial Advisor, Miguel Daoud, esse aumento de instabilidade que vem pautando o mercado nas últimas semanas tem uma única fonte de explicação: os investidores estão começando a ajustar seus portfólios à nova realidade que passará a figurar quando o Federal Reserve (Fed), banco central americano, encerar seu programa de recompra de títulos do Tesouro no mês que vem.

"Os investidores não terão mais a mesma disponibilidade de recursos. Com o fim desse mecanismo de estímulo, os agentes começam a ajustar posições", diz Daoud, apontando que essa é a realidade do mercado desde o encontro de 27 de abril do Fed, no qual ficou acertado o fim do programa de compra.

Diante disso, diz Daoud, a Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa) tem espaço para recuar mais, assim com o preço das commodities. Já o dólar tende a ganhar força, tanto por saídas financeiras quanto comerciais.

Com isso, o "ganho" do Brasil dentro desse quadro, que seria a queda da inflação via commodities, pode ser anulado dependendo de quanto o preço da moeda americana subir.

De volta ao pregão de quarta-feira, o dólar comercial fechou com alta de 0,93%, a R$ 1,620 na venda, recuperando toda a queda registrada na sessão anterior.

Na Bolsa de Mercadorias & Futuros (BM&F), o dólar para junho mostrava alta de 1,11%, a R$ 1,629, antes do ajuste final de posições.

Além das questões envolvendo a China, Trotta, do Banif, aponta que outro componente relevante no tom negativo do dia foi a forte queda do euro ante o dólar. A moeda comum europeia cedeu 1,4%, voltando à linha de US$ 1,42. Movimento relacionado aos problemas de financiamento de Grécia, Portugal e outros países da região.

Captando a venda de matérias-primas, o índice CRB caiu 3%, para 338 pontos.

Com isso, o índice devolveu todo o ganho que tinha acumulado desde o tombo da quinta-feira da semana passada.

Eduardo Campos é repórter

E-mail eduardo.campos@valor.com.br