Título: Europa não abre mão de chefiar o FMI
Autor: Ribeiro , Alex
Fonte: Valor Econômico, 17/05/2011, Internacional, p. A9

As chances de os países emergentes assumirem o comando do Fundo Monetário Internacional (FMI) foram praticamente enterradas ontem, depois que autoridades europeias declararam que não abrem mão de indicar o sucessor de Dominique Strauss-Kahn. A ministra das Finanças da França, Christine Lagarde, é considerada a candidata mais forte e poderá ser a primeira mulher a liderar o organismo.

A chanceler alemã, Angela Merkel, disse que "há boas razões" para a Europa indicar um candidato próprio para chefiar o FMI, num momento em que países da região dependem de socorro do organismo. Outras autoridades fizeram declarações semelhantes, como o ministro das Finanças belga, Didier Reyner, também cotado para o cargo em Washington.

O FMI e a União Europeia tocaram adiante ontem a sua agenda de socorro a países da região, a despeito da ausência de Strauss-Kahn, preso em Nova York desde sábado sob a acusação de tentativa de estupro de uma camareira de hotel. A número três do FMI, Nemat Shafik, participou da reunião do conselho de ministros europeus em Bruxelas em que foi aprovado pacote de ¿ 78 bilhões para Portugal.

O mercado financeiro internacional foi pouco afetado pela prisão de Strauss-Kahn, considerado a principal voz pública no FMI na defesa de um novo empréstimo para evitar a reestruturação da dívida da Grécia. Os títulos gregos registraram uma leve alta, mas o euro se valorizou, reagindo à aceleração da inflação na Europa.

Ontem, a diretoria-executiva do FMI, orgão que reúne representantes de 24 grupos de países de todo o mundo, ouviu um relato das acusações contra Strauss-Kahn. Mas a instituição não fez nenhum pronunciamento sobre o caso nem indicou quando ele irá deixar definitivamente o cargo. O número dois do FMI, John Lipsky, é desde ontem o diretor-gerente em exercício. Como ele anunciou que não pretende concorrer a um segundo mandato quando o atual terminar, em agosto, está aberta a temporada de sucessão no alto comando do Fundo.

Os países emergentes ampliaram nos últimos anos a pressão para nomear um não europeu para a chefia do FMI, mas são pequenas as chances de que isso ocorra agora. Tradicionalmente, a Europa fica com o primeiro posto no FMI e os Estados Unidos, com o segundo. Nessa partilha, os americanos nomeiam o presidente do Banco Mundial, hoje Robert Zoellick.

Formalmente, o FMI afirma que o processo de seleção é competitivo e baseado no mérito. Na prática, porém, Europa e Estados Unidos, que juntos hoje comandam cadeiras no FMI que detêm 51,09% dos votos, dão as cartas sozinhos. O Fundo fez duas rodadas de reformas nas suas cotas e poder de voto, mas elas não estão totalmente em vigor e, mesmo quando estiverem, não vão mudar o balanço de poder.

Lagarde é considerada a favorita porque têm boa interlocução na Europa e porque está em dia com a agenda de negociações internacionais, já que a França ocupa atualmente a cadeira de coordenação do G-20. Contra ela, pesa o fato de que a França comandou o FMI em 25 dos últimos 32 anos. Outro cotado é o ministro das Finanças da Alemanha, Axel Weber, mas fontes do FMI ponderam que um alemão pode ter resistências dos países europeus mais atingidos pela crise atual. De países emergentes, o nome mais citado é o ex-ministro das Finanças da Turquia Kemal Dervis.

A história mostra que a Europa sempre vota unida e ganha. Em 2007, quando Strauss-Kahn foi escolhido, ele disputou com o ex-primeiro-ministro da Republica Tcheca Josef Tosovsky, cuja candidatura foi apresentada pela Rússia. O francês acabou sendo eleito por consenso, com apoio do Brasil

Três anos antes, em 2004, o espanhol Rodrigo de Rato venceu nomes de peso graças ao apoio dos europeus. A lista de candidatos incluía o ex-número dois do FMI Stanley Fischer, que foi indicado pela África; Mohamed El-Erian, hoje alto executivo da gigante gestora de ativos Pimco; e o ex-presidente do Banco de Compensações Internacionais (BIS, na sigla em inglês) David Crockett.

O Japão, país com mais poder de voto no FMI depois dos Estados Unidos, chegou a apresentar em 2000 o seu ex-ministro das Finanças Eisuke Sakakibara, mas acabou retirando a candidatura ante à vitória certa do candidato apoiado pelos europeus, o alemão Horst Kohler.