Título: Para Loyola, se BC não agir, inflação de 2013 pode ficar fora do centro da meta
Autor: Villaverde, João
Fonte: Valor Econômico, 19/05/2011, Especial, p. A16

Valor: Para onde caminha a economia brasileira, depois do crescimento forte?

Gustavo Loyola: O crescimento de 7,5% de 2010 foi claramente acima do potencial, mas feito sobre uma base muito rebaixada, que foi o crescimento fraco de 2009. A tendência é que o crescimento volte para os níveis de longo prazo. Esse é o processo que o país está passando agora, ou seja, estamos utilizando políticas macroeconômicas de curto prazo, fiscal e monetária, para frear um pouco o crescimento da demanda e evitar que a situação de aquecimento leve a um aumento da inflação, com risco de voltar ao ritmo pré-1994, o que seria o descalabro total. A presidente Dilma já assumiu seu governo com a obrigação básica de segurar os gastos públicos, algo que ela está fazendo, e o BC com a obrigação de retomar o ciclo de alta dos juros. O que também está sendo feito, embora ele pudesse ser mais afirmativo.

Valor: As medidas macroprudenciais foram positivas?

Loyola: Acho que houve um excesso de ênfase nas medidas macroprudenciais. Elas não são medidas de curto prazo, apenas visam evitar desequilíbrios no sistema financeiro, que podem eventualmente gerar riscos sistêmicos, não são de controle de demanda.

Valor: Mesmo com corte no orçamento, aumento de juros e medidas macroprudenciais, a inflação cresce rápido. O que ocorre?

Loyola: No ano passado, a política monetária foi insuficiente, e a política fiscal foi excessivamente expansionista, à beira da responsabilidade até. Mas, como o aperto deste ano tem defasagem para atingir a demanda e portanto os preços, esse é um processo que ainda está em andamento. Os resultados desse aperto virão ao longo do tempo. Infelizmente, as expectativas de 2012 ainda estão acima da meta. No caso fiscal, por exemplo, existe razoável conforto para 2011, mas em 2012 com o reajuste esperado no salário mínimo, a situação é outra.

Valor: Como o sr. avalia a atuação do Banco Central?

Loyola: Eu, se estivesse no BC, teria feito uma alta de juros mais agressiva do que a feita pelo [Alexandre] Tombini [presidente do BC]. Além disso, acho que houve um problema de comunicação com o mercado, e o uso excessivo das medidas macroprudenciais. Me incomoda, também, a cacofonia que existe entre o BC e o Ministério da Fazenda.

Valor: Como assim?

Loyola: A Fazenda vem, sistematicamente, minimizando a gravidade da questão inflacionária, atribuindo as altas a choques externos, algo que é mínimo. Temos um problema de demanda, que não é só brasileiro, mas global. Além disso há algumas cicatrizes da era de hiperinflação.

Valor: A indexação seria uma cicatriz?

Loyola: Com certeza. A economia tem um grau altíssimo de inércia ainda. Temos mecanismos de indexação vivos, seja do ponto de vista das leis, dos usos e costumes, seja do ponto de vista cultural. Então, quando há um episódio de excesso de demanda, como hoje, há uma tendência de inflação desgarrar e, ao mesmo tempo, se tornar mais instável.

Valor: Essa questão de se institucionalizar uma inércia inflacionária no país pode ser quebrada pelo governo?

Loyola: Na minha gestão foi criado o Copom [em 1996], que foi um passo importante para o debate dentro da instituição. A Lei de Responsabilidade Fiscal [de 2000] seria impossível [de existir] se previamente o governo não tivesse renegociado a dívida dos Estados, privatizado os bancos estaduais, e feito a abertura da economia. Ou seja, o governo, se quiser, consegue aos poucos mudar culturas. Pode haver retrocesso? Pode, mas acho que em termos de combate à inflação é muito pouco provável.

Valor: Por quê?

Loyola: Porque hoje a sociedade exige isso, elegeu a inflação como inimigo público número 1. O brasileiro se acostumou com inflação baixa, e a nova classe média espera isso dos governos.

Valor: A inflação baixa é mais importante que o Bolsa Família?

Loyola: Não estou aqui minimizando as políticas de distribuição de renda, mas foi a estabilidade que permitiu que hoje o Brasil tivesse retomado àquele nível de distribuição de renda que tínhamos no início dos anos 60, pelo indicador de Gini. O nosso risco hoje é o de entrar num período de colheita de frutos, e não de plantio. Nós construímos uma situação em que o Brasil pode crescer 4,5% ao ano, mas se não fizermos nada, esse número vai cair. E à medida que cai, a tentação de usar instrumentos heterodoxos para crescer aumenta.

Valor: O câmbio valorizado preocupa o sr.?

Loyola: Acho que esse período de câmbio apreciado tem a ver com a conjuntura mundial, devido ao excesso de liquidez nos países desenvolvidos. Temos de ter musculatura para ultrapassarmos esse período, que é passageiro. Além disso, para crescer como queremos nós vamos precisar de poupança externa. Então, essa dinâmica de entrada de capitais é inerente ao crescimento.

Valor: Mas segmentos como a indústria vêm sofrendo muito com a persistente valorização do câmbio...

Loyola: Precisamos aumentar nossa capacidade de poupança doméstica. Não adianta ser feito como agora, em que há um ajuste em 2011 e logo no ano seguinte concede-se um reajuste de 15% no salário mínimo e lança mão de gastos por ser ano de eleições municipais. O custo do trabalho é muito alto e ninguém faz nada. As exportadoras não conseguem receber os créditos tributários. Então não adianta segurar o câmbio para esconder todas essas pendências. O câmbio real é o mercado que define. O máximo que o BC pode fazer é evitar volatilidade excessiva.

Valor: A política fiscal poderia reduzir a valorização, certo?

Loyola: O governo deveria ser bem seletivo no seu gasto. O que o trem-bala acrescenta para a competitividade da economia brasileira? Nada. O trem-bala é um dos maiores absurdos que eu já vi na minha vida. Estamos criando um capitalismo pouco saudável.

Valor: Que seria qual?

Loyola: O capitalismo das empresas amigas do governo. Elas não correm risco nenhum e só tem benefícios. Estamos perdendo os limites do que é privado e público, como o caso da Vale.

Valor: Como assim?

Loyola: A ideia de nomear o secretário-executivo do Ministério da Fazenda para ser do conselho da Vale é uma maluquice do ponto de vista da governança. Como é que você pega uma autoridade pública e coloca no conselho de administração de uma empresa privada? E a Vale é uma das maiores contribuintes. Quer dizer, o secretário tem sob seu comando a Receita Federal e ao mesmo tempo está lá na maior contribuinte.

Valor: O que mais o preocupa?

Loyola: A inflação. A meta de inflação não será atingida neste ano, mas meu receio é que também não seja em 2012, em 2013. No fundo, a meta começa a deslizar para cima. 2012 é um ano que terá o desafio do salário mínimo, além das pressões fiscais que serão maiores. Se o governo não se preparar desde hoje teremos uma situação complicada. A pressão sobre o BC será muito forte. E será que ele terá espaço para praticar a taxa de juros no ritmo que será necessário?